
Por Luiza Portela | Sommelière e educadora, estou de volta, após um tempo fora, e já chego trazendo uma polêmica: o filme sobre a Veuve Clicquot desanima ao focar no drama do seu marido, ao invés de contextualizar mais sobre os seus grandes feitos!
Fui ao cinema, a convite de uma amiga muito querida, que também é crítica bastante exigente no mundo dos vinhos e gastronomia, esperando um tributo à incrível mulher que revolucionou a produção de champanhe, porém saímos de lá regadas, não pelo champanhe, mas pela frustração de ver uma história tão poderosa ser ofuscada por um drama pessoal.
Barbe-Nicole Clicquot, que ficou conhecida como “a Grande Dama do Champanhe”, foi uma visionária! Quando o seu marido morreu ela tinha apenas 27 anos, mas, ao invés de seguir as convenções da época, assumiu os negócios e ousou na produção de Champanhe, criando técnicas inovadoras como a “remuage”, que melhorou a qualidade do produto e consolidou a marca.
O filme retrata a realidade da época, quando as mulheres não eram valorizadas. A verdade é que a grandeza de Veuve Clicquot só foi compreendida muito tempo depois. Naquela época, tudo era uma luta silenciosa, invisível aos olhos da maioria.
Mesmo que alguns já soubessem dos métodos revolucionários que ela introduziu, a fama da Veuve Clicquot só se consolidou após sua morte. E ainda hoje, muitos desconhecem quem ela foi e não dão o devido valor a seus grandes feitos, não só em nome dos vinhos, mas também das mulheres que assumiram grandes cargos quando não era esperado.
O champagne com o famoso rótulo amarelo ainda é subestimado por aqueles que não conhecem a história e a qualidade que ele carrega. Buscamos narrativas glamourosas, mas a verdade é que a luta de Veuve Clicquot foi solitária, conhecida apenas por ela mesma e por poucos que acreditaram no potencial daquelas inovações.
No filme, uma cena lampeira mostra nossa protagonista experimentando a remuage – que leva as leveduras ao “pescoço da garrafa”, a fim de deixar o líquido mais transparente e com menos turbidez – prática essa utilizada atualmente na produção de champagnes. No entanto, o filme falha em transmitir o impacto e a audácia dessa e de outras decisões.
O roteiro parece fixado na doença de François Clicquot, marido de Barbe-Nicole, que é retratada quase como um fardo que ela teve que carregar. Pouco se menciona sobre a substância que ele tomava na época, mas, pelo que se sabe, François sofria de depressão, e pode ter feito uso de ópio, uma droga comum para tratar distúrbios mentais no início do século XIX. Contudo, essa questão da saúde dele poderia ser um pano de fundo, não o foco principal.
Se o filme tivesse equilibrado melhor os momentos de drama pessoal com as vitórias empresariais dessa grande mulher, talvez tivesse feito justiça à real importância de Madame Clicquot. Entendo o lado romantizado, amado por cinéfilos do mundo afora, porém acredito que quando um filme propõe-se a falar sobre uma história tão valorosa, e um tema tão quisto atualmente, a exploração poderia ser muito mais abrangente.
Barbe-Nicole Cliquot era uma misto de elegância e força, e o filme deveria ter brindado mais essa faceta, ao invés de trazer um gosto de espumante sem bolhas, de uma história que poderia ter sido melhor contada.



