Provamos dois vinhos búlgaros

Conta pra mim, porque é que eu vou querer conhecer o que os búlgaros fazem, em matéria de vinho, se não sei nada a respeito deles, nem sei onde eles ficam, nem sei se eles estão mais para os vikings que ocuparam aquelas terras do leste europeu, depois da queda do império mongol, ou se são egressos de um resquício romano, como são os romenos, com sua língua latina a delatar.

De mais a mais, temos tanto Catena Zapata e El Enemigo logo aí para nos locupletar e ficar bem na foto de quem conhece vinho, particularmente entre pares que ocupam os cargos estratégicos de todas as grandes empresas do mercado!

E se não bastasse, Don Melchor, Caballo Loco e outros chilenos e argentinos não bastarão? Sem falar nos velhos Bordeaux e Borgonha, dos Barolo e Brunellos… Quem precisa conhecer mais? Não está mais do que bom?

A aposta da importadora Wineland é que tem gente insaciável, quando a matéria é vinho. Ela se especializou então nesse nicho de uvas cujo nome nunca ouvimos, produzidas em cantos do mundo que parecem saídos de um conto dos Hobbits e outros elfos. Tem Moldavos, Ucranianos, Húngaros e até búlgaros. E, pasmem, alguns desses produtores têm longas histórias a resgatar, alguns são bons demais, congelados que estiveram pela época da Cortina de Ferro, cada um do seu lado do muro.

O Melnik 55 furou a Cortina, antes mesmo dela existir, com menos frisson, é bem verdade, que os Tokay húngaros haveriam de fazer permanentemente. Afinal, quem poderia ser esquecido, se disputava palmo a palmo com os Sauternes, a primazia do mundo encantado dos vinhos atingidos pela Podridão Nobre, a Botrytis Cinerea? A garrafa teve um menino-propaganda famoso, o Primeiro Ministro Winston Churchill, que obteve sucesso internacional, até porque divulgava sem nada ganhar em troca, a não ser a consolidação de sua imagem de bon vivant e excêntrico.

Tem gente que andou aproximando este vinho feito de uma uva só, a Melnik (ou Siroka Melniska, para os menos íntimos), com a multi blended ChateauNeuf du Pape, quem sabe por serem das poucas denominações de origem, que, desde a década de 1960 apresentava-se com os taninos macios e redondos, sem ter que passar mais de 10 anos de garrafa ou 5 horas no Decanter oxigenando.

O vinho é bom, os três degustadores foram unânimes em considerar que o benefício – vide prazer – mostrou-se extremamente compatível com o que que custou, algo pra menos de R$180,00. Além do que, é agradável saber que existe vida inteligente pra lá dos limites antes estabelecidos no mundo do vinho, quando qualquer vinho de valor só podia ser fruto de certo paralelo, com certo clima e com determinado solo, tendo como referência as uvas mestre de Bordeaux, visto que os vinhos de Borgonha mostravam-se frágeis e difíceis de se reproduzirem a contento, fora das suas Costas de Ouro e Beaune (Cote D’Or e Beaune, por mais que seja uva muito utilizada nos arredores, seja no Loire, seja na Alsácia e, por certo, em Champagne).

Vamos então ao mais pretensioso da dupla o Hypnose, que, desde o nome, pretende nos envolver com o mundo do encantamento, do subjetivo, do influenciamento.

É preciso refletir como fazem os filósofos que definem o ser pelo que ele não é. Um merlot abre portas, porque se permite comparar com tantos outros feitos ao redor do mundo. Depois do sucesso dos SuperToscanos, quem quisesse na Itália de então, mostrar outras uvas que não fossem muito conhecidas, fazia um bordalês para mostrar aos críticos que sabiam fazer vinhos palatáveis, como tantos outros. E depois disso, apresentavam aquilo que autóctone, como no caso dos Teroldogo, Aglianico e outras cepas meio desconhecidas. Agora mesmo, para mostrar seu Rufete, uva da Beira, o produtor se apresenta com seu Syrah, mostrando ao mundo que ele sabe fazer.

Pois um merlot bem feito, comandado pela maestria de um Cotarello abre portas, não duvide. Um vinho que – por ser egresso de terras menos valorizadas e por outras questões básicas como concorrência local, mão de obra especializada e outros itens – pode custar muito menos do que seus pares de gôndola. Por isso, imagino, vejo tanto merlot sendo (bem) produzido em terras da Ucrania, da Romania, da Moldavia. Vinhos que não caberiam no meu bolso e eventualmente no seu, se viessem de lugares já consagrados pelos mercados importadores, vide Inglaterra, Alemanha, China, Japão, Brasil, Canadá e, principalmente, USA.    

Aqui, a tosta dos barris de madeira francesa é ajustada à propos do resultado da colheita do merlot, que parece se dar bem a toda safra, naqueles cantos do Vale Struma na Bulgária, onde o Cotarella foi levado a elevar este exemplar, conforme os melhores preceitos da enologia, os que usou para fazer seu Tignanello de Antinori, tantas décadas atrás e que usa em suas consultorias mundo afora.

Depois de um ano de barril francês de primeiro uso e mais um ano de descanso em garrafa nas adegas subterrâneas do produtor, depois de mais hora de oxigenação em decanter, o vinho foi à taça exibir seu bom buquê, sua cor que revela potência e álcool, sua untuosidade, que deixa lágrimas persistentes nas paredes das taças. O triângulo acidez, tanino e álcool se mostrou muito bem ajustado e o vinho foi muito bem avaliado pelo trio de degustadores, que compunham a mesa, com pedacinhos de casca de pizza in bianco, espetinhos de linguiça calabresa e pizzinha com queijo pecorino.

Belo inicio de noite, belos vinhos que merecem um dia frequentar sua taça.

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