Portugal ensina com seus Longevos

Por Breno Raigorodsky | O ambiente e a qualidade da cozinha têm a assinatura do Rancho Português; a simpatia e a informação vêm da premiada enóloga da Lusovini, Sónia Martins, trazida em tournée pelo Brasil pela importadora TDP Wines.

Enóloga por acaso, ela e suas colegas de escola não queriam estudar longe de casa e escolheram, no cardápio da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, duas ou três opções de curso; entre essas, a de enologia, que tinha pouca procura e era fácil de entrar.

Mas o acaso caiu sobre a pessoa certa, já que, em poucos anos, tornou-se enóloga-chefe e presidente do conselho de administração da Lusovini, com menos de 15 anos de profissão. Já não é pouca coisa, mas torna-se mais importante ainda quando a vinícola, muito jovem, é eleita como a Melhor Vinícola de Portugal pela revista Vinho Grandes Escolhas. Como consequência lógica, ela foi eleita a melhor enóloga do ano!

A procura incessante pelo o que de melhor cada terroir pode dar, sem fazer grande alarde, extrai verdadeiras joias do Dão, da Bairrada e do Alentejo (Portalegre).

Numa degustação com sete vinhos, gostei mais do Hors Concours Intemporal, elaborado para comemorar os 25 anos da marca Pedra Cancela. Feito com a casta Encruzado — cepa típica do Dão —, é um vinho que custa quase R$ 1.000,00 na importadora. O vinho passou quatro meses sobre borras finas (sur lie), além de nove anos em garrafa antes de sair para o mercado. Vou recomendar, mas não vou comprar: o tamanho do meu bolso não permite.

Gostei demais de outro que igualmente não cabe no meu bolso, porque chega a custar R$ 650,00: o Fidalga Arinto do Interior, uma uva parente da encantadora Arinto, presente em tantos brancos do Alentejo. Esta é autóctone do Dão, em recuperação na Vinha da Fidalga, em Carregal do Sal (como são bons estes portugueses em titular seus vinhos e suas localidades!). Mais um com extremo potencial de guarda, indo na contramão da tendência dos vinhos “sempre prontos para beber” que infesta o mercado atual. Aqui, este DOC 2023, que passa sete meses em inox para amadurecer, deve resistir na adega por mais de 10 anos.

Queria mesmo completar este escrito com este Bairrada 2019, que já veio à mesa com seus sete anos de vida — oito meses dos quais em barrica de carvalho francês e o resto em garrafa. A uva é a Baga, queridinha de tantos novos produtores, particularmente depois que os Pato — Luis e Filipa — passaram a tratá-la tão bem. Aqui, este Regateiro é de gama média da vinícola, pois de Regateiro temos dois mais importantes e dois mais simples. O vinho, que custa R$ 350,00 na TDP, é fácil de beber, com muita tipicidade; seus taninos são bem presentes e, aqui, estão bem domados, sedosos e finos. No nariz, as frutinhas de bosque se destacam, mas na boca o que chama mais atenção é o fim bem longo e a complexidade. Dizem que a Baga é a Pinot Noir portuguesa. Sei não… tem muito tanino para isso, apesar de ser tão gastronômico quanto se pode ser. É um belo vinho; nesta faixa de preço, é uma bela opção frente aos bons Barbera que se encontram hoje em dia por aqui.

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