
Por Regis Gehlen Oliveira | Fizemos uma degustação vertical, ou seja, uma prova de várias safras do mesmo vinho, do famoso Château Potensac, localizado no Médoc, na margem esquerda de Bordeaux, França. O time escalado foram 6 garrafas das safras de 2006, 2009, 2010, 2015, 2016 e 2018, de modo a identificar como clima, composição varietal e maturação moldam diferentes expressões de um mesmo terroir. Por coincidência, realizamos a degustação no Dia Nacional da França, que celebra a Queda da Bastilha, e no mesmo dia em que a França foi eliminada da Copa do Mundo pela Espanha.
Localizado em Ordonnac, no extremo norte da península do Médoc, o Château Potensac ocupa uma posição particular no mapa de Bordeaux. Embora esteja fora das comunas mais famosas da margem esquerda, a propriedade se beneficia de um terroir considerado incomum para essa parte da denominação Médoc: elevações argilo-cascalhentas assentadas sobre um subsolo predominantemente calcário.
A composição geológica aproxima algumas características do terreno das encontradas em Saint-Estèphe, denominação situada mais ao sul. O cascalho contribui para a drenagem e para o aquecimento do solo, enquanto a argila e o calcário ajudam a conservar água e a preservar frescor durante os períodos quentes e secos.
O vinhedo encontra-se em um dos pontos relativamente mais elevados do norte do Médoc. Essa posição favorece a circulação de ar e permite que as videiras recebam tanto a influência moderadora do estuário da Gironda quanto as correntes vindas do Atlântico. O conjunto ajuda a explicar uma das marcas históricas do Potensac: a combinação de estrutura com frescor, inclusive em anos de maturação elevada.

A família Delon e a importância de Potensac
O Château Potensac pertence à família Delon, também responsável pelo Château Léoville Las Cases (Saint-Julien), Château Clos du Marquis (Saint-Julien) e Château Nénin (Pomerol). A propriedade foi transmitida ao longo de gerações e constitui o principal representante da família dentro da denominação Médoc. O nome da família não tem qualquer relação com o famoso ator francês Alain Delon.
Embora não faça parte da classificação oficial de 1855, restrita principalmente aos crus das denominações mais prestigiadas da margem esquerda, Potensac consolidou reputação própria pela regularidade e pela preservação de um estilo ligado ao norte do Médoc. A propriedade chegou a integrar o grupo dos Crus Bourgeois Exceptionnels na classificação publicada em 2003, posteriormente descontinuada naquele formato.
O patrimônio vitícola também possui relevância. Algumas parcelas de Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc são formadas por plantas muito antigas, com mais de 75 ou 80 anos em determinados registros da propriedade. Essas videiras de raízes profundas apresentam maior capacidade de enfrentar variações de disponibilidade hídrica e produzem naturalmente quantidades menores de frutos.
As uvas que formam o Château Potensac
Os vinhos do Château Potensac são constituídos por mesclas de Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, que formam a base histórica do vinho. A Petit Verdot está aparecendo em pequenas proporções em safras mais recentes.
A Merlot é majoritária nas mesclas. Ela costuma responder pelo volume central e pela expressão frutada do conjunto. O Cabernet Sauvignon oferece a principal sustentação estrutural, enquanto o Cabernet Franc, presente em percentuais relevantes para os padrões do Médoc, amplia a diversidade aromática e contribui para o frescor. A inclusão de Petit Verdot em pequena parcela objetiva provavelmente agregar cor intensa (violácea), mais taninos (estrutura e longevidade) e acidez
As seis safras observadas mostram como a proporção dessas variedades foi modificada conforme as condições de cada ano.
| Safra | Merlot | Cabernet Sauvignon | Cabernet Franc | Petit Verdot | Vindima |
|---|---|---|---|---|---|
| 2006 | 46% | 42% | 12% | — | 20 de setembro a 2 de outubro |
| 2009 | 48% | 38% | 14% | — | 24 de setembro a 9 de outubro |
| 2010 | 42% | 37% | 21% | — | 27 de setembro a 9 de outubro |
| 2015 | 45% | 38% | 17% | — | 25 de setembro a 10 de outubro |
| 2016 | 44% | 39% | 15% | 2% | 5 a 19 de outubro |
| 2018 | 45% | 36% | 18% | 1% | 21 de setembro a 13 de outubro |
Observa-se a constante presença da Merlot e da Cabernet Sauvignon. O ano de 2010 chama a atenção pelos 21% de Cabernet Franc, enquanto 2016 e 2018 incluem as pequenas proporções de Petit Verdot.
2006: um ano de fortes oscilações

A safra de 2006 foi marcada por mudanças bruscas de condições meteorológicas. Depois de uma primavera inicialmente fresca, maio apresentou condições melhores para a floração. Julho trouxe uma onda de calor, enquanto agosto foi mais fresco e desacelerou o desenvolvimento das uvas.
Os primeiros dias de setembro foram quentes e secos, mas a chuva retornou durante uma etapa sensível da maturação. A estabilidade restabelecida antes da vindima permitiu colher entre 20 de setembro e 2 de outubro, com necessidade de seleção cuidadosa dos frutos.
O corte foi formado por 46% Merlot, 42% Cabernet Sauvignon e 12% Cabernet Franc. A ficha técnica registra acidez total de 3,51 g de ácido sulfúrico por litro, pH 3,65 e IPT 74.
O IPT — Índice de Polifenóis Totais — ajuda a estimar a concentração de taninos e outros compostos fenólicos. O valor relativamente elevado mostra que, apesar das oscilações meteorológicas, as uvas apresentaram carga estrutural considerável.
Em termos descritivos, documentos reunidos pelo produtor e por distribuidores registram presença de frutas vermelhas e negras, ameixa, framboesa, cedro e elementos minerais, sustentados por taninos firmes. É um perfil coerente com uma safra menos uniforme, mas ainda representativa da identidade tradicional do Médoc. Na nossa prova, identificamos também tabaco, pimenta, menta leve, bastante fruta,
tanino bem firme, arredondando, seco, corpo médio, redondo. Nossa avaliação foi 95 pontos, e foi a terceira safra de nossa preferência.
2009: maturação homogênea e elevada concentração

O ano de 2009 apresentou condições muito mais regulares. A floração e a formação dos frutos transcorreram sob tempo favorável. O período entre o fim de julho e o começo de agosto proporcionou uma mudança de cor rápida e uniforme.
Agosto foi seco, mas sem calor extremo contínuo. A baixa precipitação durante a maturação contribuiu para a concentração das bagas, enquanto a estabilidade do tempo permitiu acompanhar cada parcela até o ponto considerado adequado para a colheita.
A vindima ocorreu entre 24 de setembro e 9 de outubro. A composição apresentou a maior proporção de Merlot entre as seis safras analisadas: 48% Merlot, 38% Cabernet Sauvignon e 14% Cabernet Franc.
A ficha técnica informa acidez total de 3,33 g de ácido sulfúrico por litro, pH 3,59 e IPT 78. Trata-se do maior IPT do conjunto, sinal de uma safra de elevada concentração fenólica.
Os registros descritivos associados ao ano mencionam frutas vermelhas e negras maduras, ervas, tabaco, flores, cedro e mineralidade. A maturação mais homogênea e a participação elevada da Merlot explicam a maior amplitude de fruta observada nos documentos técnicos da safra. Na nossa avaliação, mostrou também bastante tanino, seco, corpo mais intenso, tabaco leve, mas ainda fechado. Um vinho que deve progredir por uns anos. Avaliamos em 95 pontos com tendência para 96 pontos, e foi o segundo colocado na nossa preferência.
2010: seca, noites frescas e maturação prolongada

A safra de 2010 começou com abril quente e seco, seguido por maio e junho mais frescos. A floração não ocorreu de maneira completamente uniforme, sobretudo na Merlot, contribuindo para uma produção mais limitada e para bagas menores em algumas parcelas.
Julho e o início de agosto foram muito secos. As videiras enfrentaram disponibilidade hídrica reduzida, condição que diminuiu o tamanho das bagas e aumentou proporcionalmente a presença de cascas e sementes.
Agosto e setembro combinaram dias ensolarados com noites mais frescas. Essa amplitude térmica favoreceu uma maturação prolongada, preservando acidez enquanto os taninos e demais compostos fenólicos continuavam a evoluir.
A colheita ocorreu entre 27 de setembro e 9 de outubro. O corte foi composto por 42% Merlot, 37% Cabernet Sauvignon e 21% Cabernet Franc — a maior participação de Cabernet Franc entre as seis safras.
Os dados laboratoriais registram acidez total de 3,53 g de ácido sulfúrico por litro, pH 3,47 e IPT 76. O pH mais baixo que o de 2009 indica maior acidez relativa, enquanto o IPT elevado confirma a concentração estrutural.
Os descritores reunidos nas fichas e avaliações históricas incluem frutas vermelhas e negras, terra, especiarias, ervas e elementos balsâmicos. A combinação entre concentração, acidez e participação elevada de Cabernet Franc diferencia 2010 dos anos imediatamente próximos. Essa participação fica clara na nossa prova, com a presença mais intensa de giz, bastante tanino, bem seco, com sensação de acidez muito intensa e tabaco. Vinho excepcional, o primeiro na nossa preferência, com 96 pontos.
2015: calor inicial e chuvas restauradoras

A safra de 2015 teve início com condições muito favoráveis. Depois de uma brotação relativamente regular, o fim de maio e o começo de junho proporcionaram boa floração.
Junho e julho foram quentes, ensolarados e secos. A limitação hídrica interrompeu parcialmente o crescimento vegetativo e favoreceu a concentração das uvas. Em agosto, chuvas importantes reabasteceram os solos e permitiram que a maturação prosseguisse sem bloqueios prolongados.
Setembro apresentou temperaturas mais moderadas e noites frescas. A colheita estendeu-se de 25 de setembro a 10 de outubro.
O corte reuniu 45% Merlot, 38% Cabernet Sauvignon e 17% Cabernet Franc. A ficha técnica registra acidez total de 3,69 g de ácido sulfúrico por litro, pH 3,55 e IPT 66.
O IPT é o menor entre as seis safras, embora permaneça compatível com um vinho estruturado. O número sugere menor concentração fenólica que em 2009, 2010 ou 2016.
As descrições técnicas destacam frutas escuras, elementos florais, mineralidade e taninos presentes. A participação de 45% de Merlot e o clima favorável da primeira metade do verão ajudam a compreender a expressão frutada registrada para o ano, enquanto as noites mais frias de setembro contribuíram para a manutenção do frescor. Na nossa prova, transpareceu ameixa, tabaco, framboesa, mais fruta, mais cheio. Avaliamos em 94 pontos, e foi o quarto na nossa preferência.
2016: um começo úmido e um verão excepcionalmente seco

O ano de 2016 apresentou um dos contrastes climáticos mais marcantes do período. O inverno e a primavera foram muito chuvosos, formando reservas de água no solo, mas também aumentando a pressão de doenças no vinhedo.
A partir do fim de junho, o padrão climático mudou. Julho e agosto foram quentes, ensolarados e extremamente secos. A água acumulada no subsolo durante os meses anteriores tornou-se fundamental para a continuidade da maturação, especialmente nos terrenos argilosos e calcários de Potensac.
Chuvas moderadas em setembro aliviaram o estresse hídrico. Na sequência, um período estável permitiu prolongar a permanência das uvas nas plantas. A vindima foi tardia, entre 5 e 19 de outubro.
A composição foi de 44% Merlot, 39% Cabernet Sauvignon, 15% Cabernet Franc e 2% Petit Verdot. As análises registram acidez total de 3,38 g de ácido sulfúrico por litro, pH 3,49 e IPT 75.
Os números mostram uma combinação de boa acidez com elevada concentração fenólica. Os registros descritivos mencionam cereja escura, ameixa, especiarias, couro, alcaçuz e elementos florais. A maturação prolongada e as noites mais frescas próximas à colheita contribuíram para preservar a definição aromática. Na nossa prova, revelou-se com bastante fruta, muito intenso, com um floral, muito tanino, bem carnudo, encorpado, toque de giz, mais cheio, final intenso. Ainda novo para prova, pode evoluir bem com o tempo. Concedemos 94 pontos.
2018: da pressão do míldio a um verão quente e seco

A safra de 2018 começou sob condições desafiadoras. O inverno foi úmido e relativamente ameno, seguido por uma fase fria a partir de meados de março. A brotação ocorreu mais tarde.
A primavera apresentou chuvas frequentes e elevada pressão em Bordeaux de míldio, uma doença destrutiva causada por organismos semelhantes a fungos (oomicetos) que ataca diversas plantas e lavouras. O controle sanitário exigiu acompanhamento constante das parcelas, e os resultados variaram de acordo com a capacidade de manejo de cada propriedade.
A partir de julho, o cenário se transformou. O verão tornou-se quente, seco e muito ensolarado. As reservas de água acumuladas durante a primeira metade do ano e a capacidade de retenção dos solos argilo-calcários ajudaram as videiras a atravessar a estiagem.
O clima estável permaneceu até a vindima, realizada entre 21 de setembro e 13 de outubro. O corte final teve 45% Merlot, 36% Cabernet Sauvignon, 18% Cabernet Franc e 1% Petit Verdot.
A ficha técnica registra acidez total de 3,39 g de ácido sulfúrico por litro, pH 3,59 e IPT 78. Assim como em 2009, o IPT elevado demonstra forte concentração de compostos fenólicos.
As descrições técnicas associam a safra a frutas negras, cassis, amora, especiarias, alcaçuz, eucalipto e taninos densos. A influência do ano quente aparece na maior maturação da fruta, enquanto o calcário, a argila e a presença dos Cabernets colaboram para a preservação da tensão estrutural. Muito novo ainda para a prova, apresentou na mesa muito tanino, acidez intensa, travado, faltando arredondamento, seco mas com leve sensação doce, e um certo floral. É vinho para guardar bem mais tempo. Nossa avaliação foi 93 pontos.
Seis anos, uma mesma assinatura territorial
A sequência demonstra que o Château Potensac não depende de uma fórmula fixa. O vinho é resultado da interação entre um terroir de forte identidade e as condições específicas de cada ciclo climático.
Em 2006, a irregularidade meteorológica exigiu seleção e precisão. Em 2009, o tempo seco e estável produziu elevada maturação e concentração. Em 2010, a estiagem acompanhada por noites frescas reuniu estrutura e acidez. Em 2015, chuvas oportunas em agosto favoreceram a continuidade da maturação. Em 2016, as reservas hídricas formadas durante a primavera sustentaram as videiras ao longo de um verão muito seco. Em 2018, o desafio sanitário da primeira metade do ano foi sucedido por um período quente e estável.
Os cortes também registram adaptações. A Merlot variou entre 42% e 48%, o Cabernet Sauvignon entre 36% e 42%, e o Cabernet Franc entre 12% e 21%. O Petit Verdot apareceu apenas em 2016 e 2018, sempre em pequena proporção.
Apesar das diferenças, permanecem alguns elementos recorrentes nos registros técnicos: estrutura tânica, expressão de frutas vermelhas ou negras conforme o ano, notas de cedro, ervas e mineralidade, além do frescor relacionado ao subsolo calcário e à posição do vinhedo.
Essa continuidade é o principal elo entre as seis safras. Mais do que uma comparação entre anos, a sequência permite observar como um mesmo território responde a diferentes combinações de chuva, calor, seca e amplitude térmica — preservando, em cada caso, a identidade do norte do Médoc.
Em harmonização, mudam algumas percepções
Provamos todas as safras no excelente restaurante francês La Casserole, em São Paulo, primeiramente com Blanquette de Veau, e depois com um Filet à Béarnaise. A delicadeza da Blanquette de Veau ficou melhor acompanhada com as safras mais antigas, mais arredondadas, particularmente as 2006 e 2009. Já com o Filet à Béarnaise, com acidez marcante do molho e mais corpo, as melhores combinações ficaram por conta das colheitas mais jovens de 2016 e 2018, assim como com a estruturada 2010. É o retrato de que um time de safras pode gerar prazeres distintos na prova solo ou com variados acompanhamentos.














