Terapia do Vinho 3 – Quem morre de medo da borra

Por Breno Raigorodsky | Dá dó de ver quando a mais santa ignorância se apresenta com a força da verdade. Em política, essa convicção é perigosa, porque pode levar ao poder até gente que não acredita na redondice da Terra.

Não nego o subjetivo, não sou um palhaço da objetividade científica e nem caio facilmente na tentação de me amparar na ciência, até porque ela é um tanto mutável, por definição. Mas há umas coisas que o neófito repele sem se perguntar o porquê. A borra do vinho é uma delas. Será que faz mal?

No mais das vezes, ao contrário do que parece, ela é prova de naturalidade. É vinho naturalmente filtrado que, com o tempo, sedimentou e solidificou alguns componentes, como taninos e antocianinas, que se aglomeram, ganham peso e se depositam pela gravidade, onde quer que ela os leve. Ou então, é sobra das leveduras, presente em vinhos não filtrados.

Comprei, uma vez, um lote de um vinho siciliano de nome Scyri, já avançado em anos. Estava lá, a preço de banana, num expositor de uma loja da Rua dos Pinheiros, uma espécie de depósito de bebidas, desses que vendem água, cerveja, destilados e o que vier.

Ele apresentava uma forte mancha de sedimentação ao longo de toda a lateral da garrafa, como se fosse uma aberração. Na tabela do atacado, custaria ao menos R$ 500,00 (no mercado internacional, o vinho custa em torno de US$ 40,00), mas comprei por R$ 50,00 a garrafa, porque ele havia se tornado invendável… Restaurantes não compram vinhos assim; consumidores também não. Comprei uma garrafa; dois dias depois, comprei uma caixa com seis; no dia seguinte, mais seis caixas e, com isso, raspei o tacho.

O vinho, um Nero d’Avola de ótima vinificação e guarda, tinha tudo o que se espera de um vinho equilibrado, complexo, de final longo e agradável. Com os anos, deve ter amaciado todas as pontas tânicas que um dia, eventualmente, apresentou.

Ou seja, se você topar com um vinho que apresenta resíduos sólidos, em suspensão ou sedimentados como borra de garrafa, não se assuste. Eles, os resíduos, não mordem, não estragam o vinho e não fazem mal à sua saúde! (Imagem gerada por Inteligência Artificial/ChatGPT)

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