Terapia do Vinho 4 – Mais um azarão faturando em degustação às cegas

Por Breno Raigorodsky | Espero que você não fique angustiado com o que vai ler a partir daqui, pois suas certezas mais uma vez irão parar no lixo. Quem deveria ganhar esta degustação, o vinho mais caro ou o mais barato? Quem deveria estar no topo: o famoso Barbaresco, o consagrado Barolo, o simples Nebbiolo ou ainda o mais improvável Barbera? Numa degustação anterior, quando o mundo dos vinhos do sul do Rhône ganhou uma amplitude muito maior do que se esperava, ao vermos os Côte de Ventoux mostrarem-se à altura de qualquer disputa regional, desbancando os vinhos mais notáveis da degustação — Châteauneuf-du-Pape incluso — ocorreu algo semelhante.

Mas não, não me sinto nem um pouco privilegiado pela originalidade destas surpresas. Agora mesmo corre pela internet um vídeo no YouTube de uma degustação feita com gente muito séria e competente, onde um vinho de 14 euros (Château Reignac) tirou o segundo lugar, numa prova às cegas em que estavam presentes alguns dos maiores monstros sagrados da literatura específica, grandes Bordeaux, como Pétrus, Lafite, Latour, Ausone etc., todos eles custando acima de 700 euros, numa desproporção que “échappe”! Desde 1976, aliás, desde que os californianos bateram os franceses em terra gaulesa, as surpresas nas degustações não pararam mais.

Agora, permitam-me esticar um pouco mais esta digressão.

Somos um poço de inseguranças travestidas em certezas, quando se trata de impressões sensoriais, e nas degustações às cegas isso fica super evidente. Tateamos, claudicantes, por um castelo de cartas sempre muito disposto a desabar, feito de expectativas. Sintomático é o caso que apareceu há meses no Estadão de uma experiência feita nos EUA, onde experientes degustadores foram chamados a escolher entre dois vinhos, sabendo que o primeiro custava o quádruplo do segundo, US$ 80,00 e US$ 20,00. A preferência massacrante caiu sobre o primeiro, apenas por conta da excitação que a relação preço/qualidade cria em nossos neurônios — porque eram exatamente iguais, eram gêmeos em garrafas diferentes, como se mostrou aos degustadores no fim do teste, para total insatisfação e incredulidade destes!

Essas inseguranças se escondem sob a forma de informação adquirida em literatura. De fato, um vinho é melhor que o outro por várias razões bem objetivas — complexidade, tempo potencial de guarda, afinamento em madeira nova, afinamento em garrafa por determinado tempo, qualidade da vinificação, solo, clima e plantação em condições ideais etc. E, no entanto, essas condições serão apenas percebidas como atributos positivos se estiverem perfeitamente alinhadas com condições subjetivas tão importantes quanto — o perfume conhecido exalado pela cepa reconhecida, a cor, a untuosidade e a densidade esperadas, servido na temperatura e nas condições reconhecidas ou esperadas.

Desta feita, numa aula sobre vinhos do Langhe piemontês, a coisa se complicou por várias razões:

  1. Lá se produzem alguns dos vinhos mais desejados do planeta, aspiração dos amantes do vinho em geral, parte de um grupo de vinhos sempre muito queridos desde os tempos em que a burguesia queria consumir o que era privilégio da aristocracia. Barolo era o vinho da corte italiana, o “vino dei re, il re dei vini”. Se não fosse por outra razão, ele sempre se revestiu de uma aura de qualidade apenas abaixo dos vinhos dos reis vindos de Bordeaux e da Borgonha.
  2. Frustrados ficaram os que esperavam mais do Montestefano, por exemplo, um vinho que tem 93 pontos dados por Robert Parker e que possui a melhor avaliação entre os degustados, visto assim pela equipe do Wine Advocate: “O Barbaresco Riserva 2005 Montestefano apresenta um núcleo de rosas maduras, pleno de framboesas e especiarias ao redor, um vinho redondo e sensual, um Nebbiolo. A complexidade continua com couro, alcaçuz e anis num acabamento sublime e outras nuances. É um grande vinho…”
  3. Ao mesmo tempo, ao contrário dos vinhos franceses mais importantes, cuja cepa e vinificação vêm sendo imitadas e recriadas ad nauseam não apenas no Novo Mundo, mas também no Velho Mundo, os grandes italianos do norte são quase desconhecidos, pois suas uvas não pululam por aí. Portanto, os degustadores esperavam afirmar impressões literárias e menos reconhecimentos sensoriais.
  4. Ao contrário dos Barolo e Barbaresco, mas na mesma força vetorial apontada para o outro lado, os Barbera e Langhe Nebbiolo são percebidos como menores pela literatura. Portanto, havia de se esperar menos concentração e menos complexidade. Aqui também, o número de goles destas uvas por participante estava abaixo de duas taças, vida afora!
  5. Os vinhos de hoje estão diferentes dos vinhos de ontem. Mesmo um Barolo, mesmo um Bordeaux, com toda a sua imponência, não resiste aos apelos do mercado comprador, bastante diferente do de 20 anos atrás. Fazem-se grandes vinhos muito mais leves e amistosos, assim como se fazem vinhos com uvas menos nobres com toda a nobreza possível na vinificação, exigências do mercado! Ou seja, Nebbiolo trabalhado com menos pompa e circunstância, Barbera tratado como se fosse uma uva cujo potencial ainda não tinha sido totalmente explorado. Eu, que ousei gostar demais do Barbaresco Santestefano, não o reconheci como Barbaresco por um minuto sequer, menos pela complexidade de frutas e florais característicos, mas pela aparência transparente e pelo sabor muito pronto. Me enganaram direitinho, pois juraria que ele era um Langhe, jamais um Barbaresco, com seus 30 meses de madeira e 24 de garrafa!

O campeão foi um Barbera d’Asti, desbancando o citado Barbaresco Montestefano e o Barolo Camilano, vinhos que custam entre duas e três vezes mais. Eis todos os rótulos que estiveram presentes na degustação, pela ordem:

  1. Barbaresco Montestefano 2005.
  2. Tenuta Carretta Barbaresco Garassino 2004.
  3. Tenuta Carretta Nebbiolo d’Alba Tavoleto 2008.
  4. Barolo Camilano 2001.
  5. Barbera d’Asti Superiore Valfieri 2005.
  6. Massolino Barbera d’Alba.

Todos foram degustados pelos 10 participantes em duas passagens às cegas: uma primeira a pão e água, uma segunda com a colunata ou bresaola e o plin regado a azeite de trufas que Pier Paolo Pichi nos serviu, e finalmente uma terceira passagem, então sem a proteção de alumínio e acompanhada pelo pato, que fechou a nossa bateria de pratos salgados.

O nº 5 ganhou nas duas primeiras passagens com alguma folga (6 votos e 7 votos, contra 3 votos para o nº 4), embora a disputa fosse intensa, já que todos foram unânimes ao dizer que esta foi uma das degustações mais equilibradas das 10 que já fizemos.

Veja mais

Terapia do Vinho 5 – Duelo despretensioso com pizza marguerita

Por Breno Raigorodsky | Intenso foi o silêncio entre o grupo de provadores, reunidos em torno de uma...

Em Nome do Vinho: 500 frases autorais para brindar à vida, livro de Marcelo Copello

O jornalista e crítico de vinhos Marcelo Copello lança "Em Nome do Vinho: 500 frases autorais para brindar...

Terapia do Vinho 3 – Quem morre de medo da borra

Por Breno Raigorodsky | Dá dó de ver quando a mais santa ignorância se apresenta com a força...

Rio Grande do Sul oficializa o Dia Estadual do Sommelier

Estado RS | Os sommeliers gaúchos passam a contar, oficialmente, com uma data dedicada à profissão. O governador...