
Por Breno Raigorodsky – Este nome já foi o mais importante da historia do vinho italiano. Afinal, um dos Barões Ricasoli – Bettino Ricasoli – foi duas vezes Primeiro-Ministro da jovem República da Itália e, nos anos 1930/33, e foi fundamental para iniciar a regulamentação dos vinhos do país, a partir dos vinhos toscanos de nome Chianti, a Primeira Denominação de Origem – espelhando o que acabara de acontecer na França – para defender o mercado e o prestígio conquistado pelos produtores originais da região, que fizeram a fama deste vinho superar fronteiras. Pudera, com a descoberta de como escapar da Filoxera, pulgão que arruinara a produção dos melhores e dos piores vinhos da Europa, muitos produtores usavam uvas vindas de qualquer lugar para substituir as sangiovese originais que haviam sucumbido à praga e, com isso, estavam acabando com o mercado conquistado.
De lá para cá, muitos hectolitros de vinho rolaram pelas taças.
Ricasoli viveu anos de vacas magras, em torno dos anos 1960, e acabou sendo adquirido por uma empresa estrangeira que não honrou o nome da família, nos anos 1970.
Vinte e três anos antes da virada do século, a vinícola voltou para a família pelas mãos improváveis do 32° Barão – Francesco Ricasoli – um fotógrafo profissional, que decidiu mudar o rumo da sua vida, investindo o que tinha e o que não tinha para reconstruir a qualidade dos vinhos do Castelo di Brolio, que era e é o nome da propriedade fundadora da vinícola, pretendendo recuperar o protagonismo que sempre esteve ligado ao nome dos vinhos da família. Como disse em uma entrevista recente “A maneira como se bebe e se aprecia vinho hoje seguiu as mudanças econômicas e sociais do último século. O vinho foi revolucionado”.
O esforço foi reconhecido pelo público e pela crítica: foi eleita Empresa do Ano pela Gambero Rosso. Ricasoli renasceu forte e vibrante, como se pode ver em seus vinhos, que são importados pela Via Vini para o Brasil.
Ricasoli, na virada dos anos 2000, foi responsável pela recuperação dos Chianti Classici, que havia perdido prestígio e qualidade, mesmo na própria Toscana, pois os nomes Brunello, Montepulciano, Morelino e Borgheri tinham colocado o Chianti num lugar subalterno em matéria de qualidade.
O sucesso do Castello di Brolio vem muito do Chianti Classico, e por que Barone Ricasoli fez isso e não outro vinho? Ele está se reapropriando de seu papel histórico no vinho, como manifesto no rótulo. Muito clássico. Por outro lado, como fazem todos os produtores da região desde que Antinori ousou enfrentar a Denominação Chianti, Ricasoli faz suas investidas em uvas internacionais, mostrando que é capaz de atingir grandes níveis de qualidade, mesmo no manejo de uvas que não faziam parte da tradição local.
Tive oportunidade de experimentar os vinhos da primeira linha do que se faz hoje neste templo do vinho toscano, o Castelo di Brolio, o QG da vinícola desde sempre. 250 ha. de produção daquilo que pode se chamar do principal laboratório de terroir que se tem notícia naquelas terras, que vão de Siena a San Giminiano, já nos arredores de Florença.
Antes de comentar, dou toque pessoal a este relato: aprendi a gostar de vinho na década de 1970, quando morei em Roma, acolhido pelo tio da minha ex-mulher, Rita de Luca. Este tio, Leôncio, era um aposentado de boas posses, que, semana sim, semana não, saia pelos arredores de Roma a comprar uma damigiana (garrafão de vidro de 10 litros) de vinho a granel. Várias vezes fui com ele viver essa experiência, e várias vezes fui instado a escolher, como quando fui desafiado para ficar com um Chianti Classico 1966 e outro de 1967.
No restaurante Tappo, fomos expostos a uma bateria de nove vinhos, sendo um rosé, um branco, os outros tintos.
Impressionou a elegância de toda a bateria, mesmo nos vinhos que superam os 14,5% de álcool. Todos muito equilibrados, cada qual à procura de seu norte, seja na uva escolhida – no caso do Cabernet Sauvignon e do Merlot provados – seja na proposta de extrair estilos diferentes de diferentes propostas viníferas, resultando vinhos que variam dos R$300 a R$1.100, com estilos muito diferentes.
Destaco três:
o primeiro tinto, o vinho de entrada desta coleção, com envelhecimento em tonneaux por 18 meses. Este Chianti Classico Brolio Riserva 2021 é um vinho que nos lembra os melhores Chianti Classicci Riserva dos anos 1970, uma verdadeira viagem no tempo, recuperando o estilo gastronômico que fazia do Chianti o melhor e mais popular vinho italiano em toda Europa. Evidentemente, com os recursos de hoje, o vinho é muito melhor do que os feitos outrora, muito mais limpo, sem defeitos, tão comuns nos vinhos de 50 anos atrás. É um blend de os cinco crus, nenhum deles acima dos 500 metros ou abaixo dos 300. Não deixa de lembrar o que havia de bom para ser lembrado.
Sanbarnaba Castelo di Brolio, Trebiano, 2020, R$720. Com 13% de álcool, 12 meses em ânfora e 6 meses de barrica neutra, este Trebbiano de vinhas velhas mostra uma qualidade inigualável para esta uva que graça por todo centro-norte da Itália e por muitos terrenos da França, em torno de Bordeaux, onde leva o nome de Ugni Blanc. Apenas 5.600 garrafas foram produzidas, um vinho excepcional onde tudo é contido, mas tudo é longo, agradável, untuoso, desde o nariz de damasco, até o final, cuja mineralidade lembra os grandes vinhos brancos franceses.
Gran Selezion Roncicone 2021, 14% de álcool, 22 meses de envelhecimento, Sangiovese, R$760,00. O mais complexo e surpreendente de todos que experimentamos, um vinho que atinge níveis de elegância desconhecidos para Sangiovese, sem, contudo, perder a identidade. Não por acaso, recebeu notas altíssimas de todos que degustaram.
A Revolução começou no Castelo e parece que não vai acabar tão cedo.
