
Por Breno Raigorodsky | Dentre os presentes da turma dos expositores comedores de pão de queijo, estava, atrás de uma das mesinhas de exposição, um cara que me ofereceu um País. País? De tudo que eu tinha experimentado, de nada tinha gostado, pelo final vegetal demais; uva que parecia americana na boca, coisa que parecia jamais chegar lá. Devagar com o julgamento: não com isso desrespeitei os enólogos chilenos envolvidos em projetar esta cepa que, de tão velha no Chile, mais parece autóctone. Não é; é cepa europeia. Apesar de ser rústica, deve estar no Chile desde o início da colonização; é parente da Criolla argentina e da Mission mexicana, coisa de meados do século XVI.
Não é uva nobre; dominava a produção no Chile para consumo interno, ao menos até os anos 1980. Aí, então, o Chile descobriu a América (do Norte), passou a vender a granel e depois consolidou-se como produtor de vinhos finos. E aí a País ficou num lugar menor. Algum enólogo local deu mais atenção a esta uva. Nada tão incomum, afinal a história da Malbec na Argentina é parecida; naquele caso, foi o pai do Nicolás Catena Zapata que acreditou na uva e fez daquele diamante bruto tornar-se o brilhante de grande valor que é hoje.
Pois bem, assim como demorei para gostar dessas uvas adocicadas no ataque, que tanto sucesso fizeram desde sempre nos EUA – a saber: Zinfandel, Primitivo e Malbec – a País não caiu nas minhas graças. Mas esse expositor dentro da exposição (na verdade, um importador dentro do outro), Avi, da Flaks Wines, me fez provar dois bons vinhos feitos com esta uva à qual jamais dei alguma importância: o primeiro, o Aurora de Itata; o outro… cadê o outro? Pois bem, ambos os País degustados eram bons, particularmente este que mantém 2/3 em barris de carvalho francês por seis meses, enquanto o outro terço mantém-se em cimento. Agradável, generoso, complexo, fez-me ver que existe luz no fim deste túnel que leva o nome de País.

Uma palavrinha complementar. O primeiro vinho que me empolgou foi o Hito, Tempranillo produzido pela Bodega Cepa 21, de Ribera del Duero — quem sabe a região que mais visitei, sempre a convite da Secretaria de Turismo de Castilla y León. O Hito me fez lembrar de outros de Ribera del Duero, o que denota a força de terroir que esta região consegue apresentar, mesmo que apareça com um véu normatizante da madeira francesa, não mais tão presente como já foi em vinhos de alta gama.
Finalizando, sem mais delongas, fique de olho: a Liberwines desceu até a outrora terra do café para se fazer presente.
