A Sicília como local de turismo, Donnafugata como destino

Por Breno Raigorodsky | Senta que lá vem história. Há muitos anos, tive a oportunidade de conhecer uma joia rara, raríssima, premiada pela revista de vinho Gambero Rosso com duas estrelas (due stelle), o que significa dizer: 20 anos consecutivos de 3 taças (3 bicchieri): o Mille e una notte 1995. Era um vinho que custava R$ 360,00 no cardápio da importadora de alimentos La Pastina, que naquele ano daria vida à Worldwine. Ele estava na bacia das almas, pois havia completado 10 anos de vida, tempo suficiente para não ser mais aceito como mercadoria pela grande maioria dos intermediários e restaurantes. Por isso, em vez de R$ 360,00, estava custando quatro vezes menos que isso.

Atrevi-me a comprar uma garrafa, que consumi com sofreguidão e excelso prazer. Um vinho na melhor acepção, onde tudo está no seu lugar, como só ocorre em grandes e raros vinhos — ao menos para o meu modesto poder de compra, pois ter acesso a grandes vinhos só ocorre muito de vez em quando.

O que sobrava do estoque? Seis caixas que comprei, um atrevimento, um rompante de negociante semi-amador que eu era na época. Escrevi para a minha minúscula clientela sobre que produto se tratava, dos prêmios etc. Disse quanto custava em tabela, disse quanto paguei, tornando o markup escancarado: “Custava R$ 360,00, comprei por R$ 90,00, você paga R$ 180,00 por cada uma.” Moral da história: vendi todas as 36 garrafas em menos de uma semana; não sobrou sequer uma garrafa para mim.

Estava indo para a Sicília, onde nunca tinha posto os pés, para conhecer aquele caldo cultural: meio fenício, meio árabe, meio grego, meio romano, meio normando, meio Itália, meio Espanha, um pouco Tirreno, outro pouco Mediterrâneo, com suas praias, seu estoque de sítios arqueológicos que parece infindável e que desagua em Taormina. Mas, lá no fundo, minha proposta principal estava em visitar a Donnafugata em Marsala, onde tudo começou.

Mentira. Tinha, sim, posto os pés na Sicília, quando passei vinte dias de férias em Parghelia, a 1,5 km de Tropea, em 1973, quando ainda morava em Roma. Franco, um dos primos-sobrinhos de Rita – minha mulher, na época – ia renovar sua inscrição na Faculdade de Messina, onde ele estudava direito. Ele ia de carro até lá, algo como duas horas de distância até os arredores de Reggio in Calabria, onde se pegava o “traghetto” para atravessar o canal e, depois de meia hora no mar, chegar a Messina, na Sicília.

Chegamos lá em torno das 11h30 da manhã; uma hora depois, estávamos livres para almoçar por lá, onde se deu o diálogo que segue: – Franco – disse eu – podemos almoçar no restaurante que escolher, eu pago para você. Resposta do rapaz: – Comer em restaurante? Não confio, não sei que azeite usam, não sei quanto tempo guardam a comida, não sei de onde vem o vinho que servem, não sei por onde essas pessoas que fazem e servem a comida andaram antes de mexer com o que vou comer. Francamente, vou voltar e comer em casa, como sempre.

Como pude esquecer esta frustrada viagem à Sicília, 50 anos antes? Imagine chegar até lá e não poder sequer experimentar alguma coisa da famosa culinária siciliana? Já contei e escrevi sobre esta experiência uma dezena de vezes, porque ela sintetiza, na comida, um dos pilares da vida mundana, em contrapartida à vida aldeã. Nessa, você vive uma aventura constante, diária, onde o desconhecido faz parte da ampliação de seus conhecimentos e sensações. Naquela, ao contrário, o dia a dia é feito de segurança, do caminho mil vezes trilhado, sem aventuras na mesa e em outros lugares onde se possa aventurar. Não é por acaso que os políticos conservadores tendem a jogar suas fichas, em todos os continentes, no interior do país, onde a tradição e a segurança, em todos os sentidos, tendem a reforçar valores antigos.

Voltemos ao Mille e Una Notte 1998. Na época, era Nero D’Avola (mais de 85%), 13% de álcool, 24 meses de madeira nova francesa, com tosta média e mais de um ano em garrafa. Atualmente, perdeu metade dos meses em madeira, ganhou alguma expressão de Petit Verdot, e dobrou o tempo em garrafa antes de ser comercializado. Virou mais jovial e, ao mesmo tempo, mais austero, mas continua sendo o mesmo grande vinho que conheci há tantos anos. Fiz o possível para recuperar aquele conhecimento.

Em Marsala, uma cidade onde tudo jogou a nosso favor, fomos à prova de outros tantos vinhos, junto com aquele que tinha me guiado até lá. Em três dias, comemos muito bem no centro histórico, seja nos restaurantes, seja na cozinha do nosso apartamento alugado, num cortile (pátio interno), bem perto do centro, bem perto também do sítio arqueológico, bem nas costas do cinema do grande filme Cinema Paradiso.

No dia da degustação, que pensava ser totalmente individual – para que uma entrevista pudesse ser feita em boas condições –, descobri-me numa degustação coletiva, mas de bom nível, com bons vinhos e guia super profissional.

Fiquei sabendo da dimensão da Donnafugata: como ela havia se expandido a partir da ótima aceitação que seus produtos tiveram do consumidor e da crítica, para muito além de Marsala – para Pantelleria, para perto do Etna, na Cantina Randazzo, para Vittoria e para Palermo –, criando, assim, condições ideais para tratar com respeito e eficiência as diferentes uvas e terroirs da Ilha. Entre elas: Grillo, Nero d’Avola, Lucido, Frappato di Vittoria, Zibibbo e Nerello di Mascalese.

Não é à toa que Donnafugata é nome de respeito na Sicília e em todos os lugares do mundo, rivalizando em qualidade e prestígio com Planeta e Tasca d’Almerita.

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