Miguel Torres Chile aposta na viticultura regenerativa

Por Glaucia Balbachan | No final de maio, fizemos uma visita técnica à vinícola Miguel Torres, localizada em Curicó, no coração do Vale Central chileno. O objetivo é entender de perto os princípios e resultados da viticultura regenerativa; tema, que estamos pesquisando em mestrado, além da prática que a vinícola vem aplicando há três anos e que está transformando profundamente sua relação com o solo, o ecossistema e vinhos.

Barricas, ovos de cimento e um passeio técnico conduzido pelo enólogo Cristian Carrasco Beghelli

Fomos recebidos pelo enólogo Cristian Carrasco Beghelli, que nos conduziu por uma imersão técnica logo pela manhã. Em meio ao outono agradável típico da estação, percorremos a bodega, onde degustamos amostras direto das barricas de carvalho e conhecemos os ovos de cimento, usados para o envelhecimento de alguns vinhos, para a Miguel Torres a madeira é significativa para o estágio final de seus vinhos.

Foto: Miguel Torres/Chile

Nos vinhedos: práticas regenerativas e energia solar

A visita seguiu para os vinhedos regenerativos, onde a Miguel Torres implementa técnicas como cobertura vegetal permanente, compostagem com resíduos naturais da vinícola, pastoreio de ovelhas e ausência de herbicidas e fertilizantes químicos. A ideia central da viticultura regenerativa é devolver vida ao solo, promovendo equilíbrio microbiológico, retenção de água e maior resiliência da planta — algo que tem se refletido não apenas na saúde dos vinhedos, mas também na complexidade dos vinhos produzidos.

Durante a visita, Cristian explicou os motivos que levaram a vinícola a iniciar essa transformação no manejo:

“A decisão de adotar a viticultura regenerativa na Miguel Torres Chile nasceu de uma necessidade real: Embora a vinícola já seja orgânica, o objetivo é cuidar do solo, da biodiversidade e do futuro da nossa produção. Com o manejo regenerativo, conseguimos devolver vida ao solo, aumentar sua resiliência e criar um ecossistema mais equilibrado.

E claro, isso se reflete no vinho. Quando a planta cresce num ambiente mais saudável, com raízes profundas e solo vivo, ela expressa melhor o seu terroir. O resultado são vinhos com mais identidade, complexidade e equilíbrio. A gente acredita que esse é o caminho não só para produzir melhor hoje, mas para garantir que as próximas gerações também possam fazer vinho aqui, com o mesmo respeito pela terra que estamos aprendendo a cultivar agora, menciona o enólogo da Miguel Torres.”

Outro ponto alto da visita foi conhecer as placas de energia solar que abastecem parte da estrutura da vinícola. A sustentabilidade ali vai além do discurso: está integrada ao cotidiano da produção.

Degustação guiada e o terroir de Curicó

Na sala de degustação com vista para os vinhedos de folhas alaranjadas, tivemos uma conversa profunda sobre o conceito da viticultura regenerativa e o papel do terroir de Curicó na identidade dos vinhos da Miguel Torres. Cristian também compartilhou a história da vinícola, que carrega a tradição da família Torres, originária da Espanha, e sua longa jornada de mais de quatro décadas no Chile, unindo legado e inovação.

Durante a degustação, exploramos rótulos que expressam a diversidade do portfólio e a força do manejo regenerativo. Começamos pelo Estelado, espumante Rosé elaborado com a uva País, resgatando uma variedade histórica com elegância e frescor. Seguimos com o Sauvignon Blanc da linha Ántica, de perfil vibrante e mineral, e o Pinot Noir Gran Reserva Ántica, que entrega notas terrosas, personalidade e grande finesse. E finalmente encerramos com o Miguel Torres Almado, produzido exclusivamente com uvas provenientes de vinhedos regenerativos — um vinho que traduz a filosofia da casa em cada gole. (Almado significa que tem alma).

Gastronomia sustentável: o restaurante que celebra o entorno

Outro destaque que merece menção é o restaurante da vinícola, 100% sustentável, onde todos os insumos são provenientes de produtores locais. Os ingredientes são majoritariamente orgânicos, e há um compromisso claro com a valorização da comunidade agrícola do entorno. A proposta vai além da harmonização entre comida e vinho: trata-se de uma extensão do trabalho regenerativo também para a gastronomia, fortalecendo cadeias curtas e uma culinária conectada ao território. A vinícola recebe visitantes para degustação. É necessário reserva antecipada.

Uma jornada intensa e inspiradora

A visita foi curta, intensa e extremamente proveitosa. Voltamos com uma bagagem rica de conhecimento sobre uma prática que vem ganhando espaço significativo também nas discussões para o mestrado. A viticultura regenerativa não é apenas uma tendência — é uma resposta urgente aos desafios do presente no desiquilíbrio climático e um caminho promissor para um futuro mais equilibrado na produção de vinhos.

Os vinhos da Miguel Tores Chile estão presentes no Brasil por meio da importadora Qualimpor – www.qualimpor.com.br (Crédito das imagens: site Empratado)

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