
Por Breno Raigorodsky | Do ponto de vista comercial, há uma novidade que interessa a quem compra vinhos em São Paulo: os mineiros da LiberWines acabam de aterrissar em nossa capital Paulistânia com seus vinhos de pouco volume e bom preço. Seleção mais do que bem-vinda, em geral.
Mas, quando se trata de vinho, o comércio envolve os quatro sentidos mais importantes, que são – não exatamente nessa ordem – memória, olfato, palato e bolso. Envolve igualmente os olhos, sempre importantes não apenas para ver a transparência e a cor do vinho, mas, principalmente, para reconhecer um rótulo que traga empatia, intimidade, cumplicidade.
Faz sentido dizer que quem escolhe esses vinhos não o faz apenas de posse dos guias que dão pontuação. Vi trabalho – labuta, transpiração.
Dois ou três brancos europeus e mais uns cinco tintos me pegaram bastante, seja pelas escolhas que eu também teria feito — como um Petit Chablis, um Chianti, um Etna, um St. Emilion Grand Cru, um belo Douro, um Rioja Reserva e tantos outros, como um Tannat uruguaio de ótimo nível — seja pelos preços bem razoáveis, quando comparados com os que se apresentam em nosso mercado.
A começar pela deliciosa amostra, até no nome: Préjugé, Chardonnay da Maison Ventenac, que vem de Cabardès, Languedoc, ao norte da fantasiosa Carcassonne. A Maison foi meu ponto máximo de curiosidade nesta bem-vinda importadora que finca o pé em nosso solo.
Uma vinícola cheia de truques publicitários, que se nota nos rótulos e nos nomes escolhidos. Porque produz não apenas o Préjugé, como acabamos de ver, mas também um Le Paria (O Pária), um L’Idiot (O Idiota) e outros tantos singelos, com nomes pessoais e íntimos, como Paul, Jules, Réserve de Jeanne e tantos outros.
E enquanto o Préjugé faz parte de uma linha chamada de Les Dissidents (Os Dissidentes), o malabarismo enológico justifica a linha à qual pertence, pois o preconceito não se aplica à cepa, Chardonnay, mas sim ao seu complexo processo em cantina: 70% por 120 dias em grandes botes de carvalho francês (20 hl), 30% com conversão malolática, o que não é usual para vinhos brancos. Um dos Cabernet Franc de bom preço, boa apresentação e uma boca surpreendente, o Paul, estagia em jarres de 150 litros (50%) e carvalho de 20 hl. Destaque da apresentação: leve, agradável, consistente, elegante; um Cabernet Franc.
Tem outro Cabernet Franc que não estava na apresentação da importadora, mas mostra bem a procura incessante pelo inusitado: Paciência! Veja o que a ficha técnica sugere: 100% CF, solo de argila profunda e calcário. Bote de 20 hl. Aproximadamente 3.000 garrafas. Um vinho tenso e fresco, mas com doçura, principalmente devido ao envelhecimento em carvalho. Precisará de algum tempo (paciência!) para que todos os seus aromas se integrem completamente. Excelente potencial de guarda. Notas de aromas vegetais maduros, bourbon, menta e groselha-preta.
A Maison Ventenac produz tantos outros com uvas autóctones sem valor de mercado além do local, além do regional, jamais nacional, como a Caladoc, a Colombard e a Rolle — uvas de que eu, que giro em torno desse mundinho do vinho há tantos anos, jamais ouvi falar.
Tem uma outra linha de vinhos que se diferencia e se contrapõe à linha dos Dissidentes. Esta segunda leva o nome de Signature, e é aí que os nomes próprios ganham cumplicidade, com algum desejo expresso por cada uma das personificações que produz. Um bom exemplo desses é o Réserve de Jeanne, um corte de Cabernet Franc com Syrah. Mais uma vez, o catálogo pretende ser autoexplicativo: “Não sei se Jeanne irá amar este cuvée, mas é certo que ela vai amar seu nome… este cuvée é nossa interpretação sem concessão de um ‘Cabardès’ – quer dizer, um vinho fresco, porém terno, um vinho correto, mas amistoso”. Construído em torno das Cabernet Franc e Syrah oceânicos, o Réserve de Jeanne nos leva para longe da tipicidade regional.
Pois bem, comecei falando do todo e acabei me estendendo no particular. Foi mal, caro leitor. Espero ter a chance de escrever um novo artigo mais elegante do que este; me empolguei, foi mal.
