
Por Breno Raigorodsky | Larraín, ex‑presidente do movimento independente chileno MOVI, é um desses chilenos que deram vez a uma enologia inquieta, no Chile dos anos 2010 em diante. É fruto indiscutível deste novo momento, onde o vinho orgânico não está mais na ordem do dia, simplesmente porque sabe-se cuidar da uva enquanto planta, entende-se melhor o todo do vinho, o que vai impactar, no que se deve mexer para chegar ao ápice de um produto. Obviamente, ao se falar de Chile, é preciso falar desta tradição enológica que foi crescendo conforme foi-se agregando valor ao produto, que tornou-se importante nos negócios internacionais, particularmente com o mercado norte-americano, que passou anos comprando a granel os vinhos de pouco preço vindos do país vizinho, o que deu oportunidade para que, em poucos anos, o Chile fosse local de grandes investimentos no vinho, colocando inclusive a Concha Y Toro no lugar de destaque enquanto produtor de volume, mas também de qualidade.

Pois seu vinho da década passada, aquele que melhor apresenta suas angústias e pretensões, enquanto enólogo, tem nome autoexplicativo, Acróbata. Nele, Larrain varia não apenas do percentual das uvas eleitas para o blend, como também as parcelas eleitas, mantendo fixo os princípios da vinificação que dá especificidade única para eles: o blend de três safras consecutivas. As uvas chegam de Apalta, Cachapoal e Rapel, são das cepas Cabernet Sauvignon, Carmenère e Syrah. Tudo feito, o sumo das 3 cepas descansam por 18 meses em barricas francesas, sendo que 50% de primeiro uso.
O Acróbata nº3 é velha conhecida dos especialistas, no Brasil, em 2017 o Eduardo Milan e o Marcio Oliveira da Vinotícias comentavam positivamente sobre o resultado.
Fizemos uma degustação vertical com as 3 amostras sequenciais, disponíveis no mercado a preços bem abaixo dos que foram praticados no lançamento, mostrando que algo na comunicação não deu muito certo, comercialmente. Queríamos ver na boca e no nariz se algo procedia neste “desencanto mercadológico” que fazia dos vinhos, produtos na ordem dos R$500,00 a unidade, chegarem a ser vendidos a menos da metade disso, como constata propostas como a do site de vendas Cavista, que anda vendendo abaixo dos R$300,00, quando o trio já foi comercializado por R$1.500…
Acróbata 3 – Safra 2012/ 2013/ 2014 – Uvas: Cabernet Sauvignon 51%, Carmenère39% e Syrah10% – 18 meses em barricas de carvalho francês 50% novas – 95 pontos Tim Atkins
Acróbata 4 – Safra 2015/ 2016/ 2017 – Uvas: Cabernet Sauvignon 60%, Carmenère 30% e Syrah 10% – 12 a 18 meses em barricas de carvalho francês 40% novas – 94 pontos Tim Atkins
Acróbata 5 – Safra 2017/ 2018/ 2019 – Uvas: Cabernet Sauvignon 35%, Carmenère 34% e Syrah 31% – 18 meses em barricas de carvalho francês 30% novas – 94 pontos Tim Atkins
Na degustação, com a presença de degustadores de grande reconhecimento do mercado, os vinhos se comportaram como o esperado, no sentido da evolução. O nº3 mostrou-se mais cansado, num ponto em torno do ápice, demonstrando que logo começa a sua decadência biológica. O nº4 se mostrou vigoroso no ponto, mostrou que resiste ao tempo, por ao menos mais 5 anos. E nº5 mostrou-se jovem, ainda longe do pico do Arco de Gauss biológico. Ou seja, o mais velho agindo como o mais velho, o mais novo agindo como o mais novo, em todos os 3 sentidos, visual, aroma e paladar.
Minhas notas pessoais foram altas, talvez não tão bonzinho quanto o Tim Atkins, mas bem boas: gostei mais do nº3, ficaria com ele e compraria 12 garrafas dele, pelo preço que o Cavista está oferecendo, um vinho de uma elegância bordolesa, dá pra confundir com um belo de um Haut Médoc entrado em anos.
O nº 4 é o vinho pronto, que ainda está evoluindo, quem sabe chegue ao charme do nº3, mas acredito menos nele, compraria 8 garrafas.
Quanto ao nº5, o vigor atrapalha a complexidade, chama atenção a presença bem mais marcante do Syrah e seus identitários, o álcool bem mais presente, precisa ter menos pontas, precisa ser mais domado. E, no entanto, é o que tem mais apelo de mercado, vai durar bem mais do que os outros (o pulo é grande – no 3 e no 4, a uva do leste francês comparece com 10%, no 5 comparece com um terço do todo).
Me compraria umas quatro garrafas, mas consumiria apenas daqui uns dois ou três anos.
