
São Paulo | Por Regis Gehlen Oliveira – O restaurante, hoje sofisticado, nasceu há 20 anos com a ideia de ser uma trattoria, uma cozinha e um ambiente italianos mais simples. Juscelino Pereira, fundador do Piselli (ervilhas em italiano), comemora o bom tempo de vida e o sucesso da casa contando suas histórias, algumas já conhecidas por quem é do meio, outras nem tanto. Sua risada e seu tom de voz altos fazem com que saibamos rapidamente quando está no restaurante. Parece de italiano, mas na realidade é da origem caipira, do interior de São Paulo.
Tudo começou com o seu sonho de rapaz aos 17 anos de empreender algo em Joanópolis, sua terra natal, quando pensou no que ainda não havia de agricultura na região: ervilhas. Incentivado pelo pai, trabalhou direitinho, montou sua horta do legume, esperou crescer, colheu e levou num caminhão seus primeiros 400 quilos a um comerciante. Não contava com um pequeno erro: deixara de colher no ponto certo um mês antes, e toda a sua safra ficou perdida.
Juscelino, cujo nome é uma homenagem do pai ao presidente da república JK, sofreu o baque, mas não se abateu. Queria mesmo se aventurar, dar voos além do território da família, e aceitou logo em seguida um convite para trabalhar como garçom num restaurante simples no bairro da Casa Verde, na capital, São Paulo. Isso foi em 1989. Logo se destacou, e galgou para restaurantes sofisticados, como o do Jockey Club no centro antigo e o Saint Peters, nos Jardins. Neles aprendeu o serviço de salão olhando os veteranos. Era o tempo em que vários pratos eram finalizados no salão, em réchaud, que exigiam uma habilidade toda especial. Sempre comunicativo e esperto, Juscelino se destacava.
Tempos depois conseguiu ir para o famoso e sofisticado Fasano, onde conheceu o chef Luciano Boseggia e o sommelier Manoel Beato. Aprendeu muito lá, tanto em relação à comida quanto aos vinhos. Recorda-se bem das oportunidades que teve para conhecer outros mundos e experiências, como uma visita à grande vinícola Biondi Santi e o ritual de troca de rolha pelo Notaio de Siena.
Estava muito bem, aos 34 anos, em 2004, comandando o Gero, outro restaurante do grupo, quando achou que era o momento de criar seu próprio negócio, e rascunhou o projeto do que viria a ser o Piselli. Foi difícil a negociação para a sua saída com Fabrizio e Rogério Fasano, que chegou até a oferecer-lhe uma participação numa sociedade para montar um sofisticado restaurante em Brasília. Juscelino balançou com a proposta, mas estava decidido, e foi em frente. Até ganhou apoio moral do conhecido jornalista Mino Carta, fundador das revistas Veja e Carta Capital, e frequentador do Gero.
Pesquisou vários pontos para implantar o restaurante, e após negociações conseguiu pegar o ponto onde era o Bistrot Cocagne. Nasceu então, em 2004, o Piselli, em alusão às suas malfadadas ervilhas do começo da carreira profissional. Começou mais simples, e foi se sofisticando aos poucos. Hoje a casa é muito bem frequentada, com pratos italianos bem elaborados, ao mesmo tempo de raiz e contemporâneos. Sua boa carta de vinhos enfatiza os italianos. Juscelino, ele mesmo, é quem dá as cartas para a cozinha e para os vinhos. E, agora, após os 20 anos, depois de abrir também um restaurante em Brasília, é provável que continue a contar mais histórias.



