Ar condicionado harmoniza com vinho de 14% ou mais

Por Breno Raigorodsky | Tantos anos atrás escrevi sobre a possibilidade mínima de alguém correr contra o seu gosto pré-adquirido, coloquei em cheque —com firmeza e raciocínio — valendo-me de reflexões centenárias, de filósofos da grandeza do Nietzsche, a nossa resistência ao novo no que comer, no que beber, entre outras coisas. Mostrei que quem aprendeu a gostar de seu modelo de feijão, quase sempre a partir do saber-fazer materno, não arredava o pé na classificação dos melhores que comeu, mesmo quando comparado ao feijão do mais consagrado chef de cozinha.

Refletia então sobre o vinho. Quem tinha pego o gosto por ele, quem se manteve nele por alguns anos, dificilmente aceitaria mudanças de modelo de ótimo, migraria para outras formas de fazer, outros resultados. O desafio da degustação está na quase impossibilidade do que se chama idoneidade, obrigados que somos a seguir nossas preferências, malgré-nous, involuntária e inconscientemente.

Quantas vezes, em degustações às cegas, testado diante de mais de 20 amostras, me vi tentado a optar pelos mais amadeirados, mais alcóolicos, para depois, quando desvendados os participantes, descobrir que deixei de lado grandes vinhos, só porque a quantidade, a velocidade e a falta de naturalidade na prova tende a nos jogar na tábula rasa dos aromas e sabores para lá de conhecidos, mesmo quando somos extremamente acostumados a estes testes.

Pois bem, é possível e provável mais uma grande mudança das condições ambientais. No calor de mais de 38ºC à sombra, por ao menos 80% do ano, mesmo em cidades como São Paulo, é preciso saber o que vai acontecer conosco, no que se refere ao vinho que amamos tanto. Ampliaremos, com certeza, a presença de ar-condicionado em todos os lugares, particularmente onde comemos, trabalhamos e dormimos. E com isso, poderemos manter nossas opções de hoje, sejam elas as mais amadeiradas e alcóolicas, sejam, ao contrário, as mais leves, ácidas e de percentual de álcool menor. 

Não é apenas uma questão de adaptação a situações mais adversas, mas é de conceito mesmo. Alguns vão sentir a pressão por mudar de preferências, passar, digamos, a optar por feijão branco do Cassoulet Francês ao nosso feijão preto da Feijoada Brasileira de sempre.

Insisto, mesmo sabendo da tendência — saudável, no meu entender — de vinhos com menos madeira, cujas uvas são colhidas um pouco antes, conferindo mais frescor a vinhos que antes eram mais pesados. É comum ver, entre participantes de degustação paga, prática usual entre as importadoras, gente se pronunciando que “agora, finalmente chegaram os meus vinhos, coisa de macho”. Como se uva tivesse sexo, e os vinhos mais alcóolicos fossem mais afrodisíacos que aqueles de 13% de volume. É tese sem qualquer comprovação científica. 

Abre-se uma janela para que se aproveite o bem-estar de almoçar, acompanhado de uma taça de vinho que harmonize perfeitamente com a comida, e que permita que se levante da cadeira, sem se obrigar a uma ou duas horas de digestão. É se abrir para vinhos brancos tranquilos e espumantes no acompanhamento da grande maioria dos pratos. Carne suína, com molhos variados, são ótima pedida para um bom vinho branco ou rosé. Acho até que nada é mais gastronômico que um espumante nature. Mesmo os pratos menos polêmicos, como um filé de robalo na chapa com panaché de legumes na manteiga, um bife com batatas fritas, um joelho de porco com chucrute, casam com um espumante Brut ou Nature de forma especial.

Para pratos um pouco mais pesados, faça como a Jancis Robinson, abra-se para uma taça de Jerez Fino em tantas harmonizações, inclusive essa. Se não quiser sair do tinto, porque do tinto não se abre mão, opte pelos vinhos como os Moulin a Vent, grandes como os Morgon, ambos filhos das uvas Gamay. Opte pelos grandes e mágicos Pinot Noir, a uva que ora serve para vinhos levinhos, quase sucos de fruta, até os majestosos, longevos e prestigiados vinhos da Cote d’Or da Borgonha. Opte como fazem os portugueses da Beira Interior, por uva autóctone, como a Rufete, menos complexa e mais acessível que as grandes francesas. Ao contrário de outros produtores, os da Borgonha fazem seus Grand Cru sem excessos

Tente aprender a gostar de vinhos como os os Rosso di Montalcino, os Ripassi di Amarone, os Rossi di Montepulciano e tantos outros segundos vinhos, muito mais amigáveis na boca e no bolso. Para um Coq au vin, esqueça um pouco seu adorado Primitivo di Manduria e abra espaço para um Beaujolais Village, um Primitivo di Salento, um vinho provençal, cuja uva pilar seja o Cinsault, um Bardolino, por que não? O vinho de ar-condicionado elitizou o vinho, dificultou sua popularização, obrigou o vinho ser mercadoria cara.

É um momento que podemos abrir uma nova onda a favor do vinho, como medida alimentar líquida, melhor companhia para o alimento sólido, que a humanidade inventou.

Imagem: IA da Microsoft

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