
Por Luiza Portela – Desde pequena, sempre fui fascinada por tudo que tocasse o universo esotérico e o mundo natural. Eu adorava jogar Runas, tinha uma tenda de Tarot, onde recebia quem quisesse tirar as cartas comigo, e meu tio, até hoje, brinca dizendo que eu sempre fui “esotérica” demais para o gosto dele. Essa conexão com o que está além dos sentidos sempre foi algo muito meu, algo que nunca larguei.
Minha avó, uma grande poetisa, escreveu poemas para mim, e todos eles tinham a natureza como tema central. Acho que foi daí que veio essa ligação tão forte com o mundo natural. Essa essência nunca se perdeu em mim. Talvez por isso eu tenha me tornado Apicultora – porque, de alguma forma, sempre quis estar em sintonia com a natureza, aprendendo, cuidando e respeitando seu ritmo. Para mim, educação e natureza caminham lado a lado, e esse vínculo sempre foi um alicerce da minha vida.
Com isso, foi natural me apaixonar pela biodinâmica, uma prática que une ciência e espiritualidade e nos faz enxergar o mundo como um sistema vivo e integrado.
Vivi recentemente uma das experiências mais transformadoras dos últimos anos: uma aula com o professor João Carlos Ávila sobre biodinâmica. Foi uma grande honra estar ao lado de alguém tão renomado, conhecido mundialmente como uma das maiores referências nessa área. O professor João Carlos morou muitos anos na Alemanha, onde teve a oportunidade de estudar de perto as ideias de Rudolf Steiner, o pai da biodinâmica, o que só torna seu conhecimento ainda mais profundo e fascinante.









Foi um mergulho inspirador, especialmente nesse ano tão simbólico, em que comemoramos 100 anos da biodinâmica. Parece incrível pensar que um século atrás já se discutia a relação entre ciência, espiritualidade e a realidade oculta por trás da física, algo que transcende os nossos sentidos e nos conecta a um universo muito maior do que podemos imaginar.
A biodinâmica vai além do natural. Ela é um convite para enxergar a agricultura como uma interação viva entre natureza e cultura. A natura é a essência do que já existe, enquanto a cultura é o toque do ser humano – a nossa intervenção criativa e cuidadosa para potencializar o que a terra nos oferece. Nesse sentido, o biodinamismo é como uma dança, em que cada preparo, cada elemento, se potencializa mutuamente, criando um ciclo virtuoso que fortalece o solo, as plantas e, de alguma forma, até nós mesmos.
Foi impossível não me fascinar com a ideia de que os insetos, por exemplo, estão em constante evolução, desenvolvendo resistências que desafiam nossos conceitos e nos obrigam a criar novos fertilizantes e pesticidas naturais. Isso nos força a repensar nossa relação com o mundo ao nosso redor, lembrando que tudo é vivo e está em permanente transformação.
E o mais fascinante é como os preparados biodinâmicos – aparentemente simples – carregam uma energia transformadora. São combinações quase mágicas, que refletem a contribuição do ser humano para equilibrar e regenerar o sistema. É como se cada elemento do universo estivesse ali, em perfeita harmonia, mostrando que nada está desconectado.
Essa aula me fez pensar o quanto a biodinâmica vai além da prática agrícola. Ela nos desafia a ir além de tudo que imaginamos, a enxergar o mundo com novos olhos, a entender que há forças invisíveis em ação, colaborando conosco – desde a terra que pisamos até o alimento que cultivamos. É ciência, espiritualidade e arte, tudo em um só movimento.
Espero um dia ter o privilégio de tomar um vinho biodinâmico – quem sabe um Coulée de Serrant, do lendário Nicolas Joly – ao lado desse Professor incrível que é o professor João Carlos Ávila. Afinal, pensar em biodinâmica é pensar em um futuro mais consciente, em um mundo em que homem e natureza realmente caminham lado a lado, criando algo que transcende o natural e nos conecta ao que há de mais essencial.
Saúde!!!
