Terapia do Vinho 6 | O sommelier da Inteligência Artificial

Por Breno Raigorodsky | Gente que anda bebendo mais a literatura do vinho do que o vinho, ele mesmo, anda bem preocupado com a Inteligência Artificial. Eu mesmo, que escrevo sobre o assunto, pensei: e agora, todas as minhas dúvidas, que são – em boa parte – as dúvidas de meus leitores, estão à disposição dos meus leitores, eles não precisam mais de mim. Para dizer a verdade, nunca precisaram, tudo que a IA disponibiliza hoje já estava por aí. Ela cita fontes, faz tudo como sempre se fez, bem antes até de existir a dita Academia, que nasceu para organizar o ensinamento, reunindo pensadores, alinhados conforme sua forma de responder às grandes questões.

Agora mesmo perguntei à IA como posso diferenciar um grande Cabernet Sauvignon de um grande Merlot, pergunta fácil, que qualquer IA saberia responder. Sem pestanejar, discursou sobre as frutas pretas e vermelhas, sobre os taninos mais ou menos pontudos, escorregou um pouco na questão da presença do pimentão verde, porque quase tratou-o como um identitário, mas logo se endireitou, respondendo que a presença sutil é até aceitável, mas que quando pronunciada, revela apenas colheita precoce. Gostei.

Mas aí aconteceu uma coisa inesperada – perguntei sobre rótulos de grandes vinhos com estas duas uvas, esperando, sei lá, que fôssemos direto para o seu campo original, algo que nos remetesse a Bordeaux nas duas margens, um canto para cada uva… ou então, à Califórnia, berço da grande contestação da supremacia bordolesa desde a década de 1970.

Mas não, ela foi bem mais perto, indicou Marques de Casa Concha CS, Concha y Toro, um vinho que se encontra no mercado brasileiro por R$99,00. E para o Merlot, indicou um corte DV Catena Cabernet-Malbec, olha só… finalmente apontou dois imponentes Merlot – o Montes Alpha e o Pizzato Reserva. Obviamente, não descarto as indicações, apenas estranho, porque foi buscar na América Latina a resposta à minha pergunta. Se fosse sobre Carménère e sobre Malbec, talvez fizesse mais sentido.

Desconfiado, fui às suas fontes, apareceram 12, nesta ordem – Boccati, Adega, Domaine du Vin, YouTube (?), Mistral, Vino Mundi, Rootstock Vinhos e Hortifruti (?!).

Como assim? E a Wine Spectator, a Decanter, a Wine Advocate, o Atlas do Vinho, a Revue du Vin, o Peñín? E os meus colegas Tommasi e Beto Duarte, entre outros? Por que foi se basear nesses motores de venda e não em outros como o Wine-Searcher?

Acho bem legal tudo isso, mas parece que esta coisa ainda está engatinhando, seguindo padrões de views, nada mais.

Aliás, acabei de perguntar para a IA do Google se ela não quer me contratar, porque evidentemente está precisando de assessor. (Imagem ilustrativa gerada por IA/Gemini)

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