
Por Regis Gehlen Oliveira | França | De 2006 a 2016, mudanças profundas nos vinhedos e na adega do Château Cos d’Estournel coincidiram com safras climaticamente muito diferentes. Seis anos que selecionamos para prova — 2006, 2009, 2011, 2014, 2015 e 2016 — ajudam a entender como o Pagodes de Cos, o segundo vinho da vinícola, ganhou uma identidade cada vez mais própria.
Poucos châteaux de Bordeaux são tão facilmente reconhecíveis quanto o Cos d’Estournel. As pagodas que se erguem sobre Saint-Estèphe parecem transportadas de algum lugar distante da Ásia, e traduzem a personalidade de Louis Gaspard d’Estournel, fundador da propriedade e personagem que, no século XIX, fez fortuna e história comercializando seus vinhos até países do Oriente.
Mas a transformação mais importante do Cos contemporâneo aconteceu menos na arquitetura e mais embaixo dela — nos vinhedos e na adega. Nas últimas décadas, a propriedade aprofundou o conhecimento de seus diferentes solos e parcelas e passou a trabalhar de maneira cada vez mais precisa cada setor do vinhedo. Desde 2000, investimentos técnicos sucessivos culminaram, em 2008, na implantação de uma adega inteiramente concebida para movimentar uvas, mostos e vinhos por gravidade, evitando bombeamentos excessivos e buscando maior precisão na vinificação.
Também houve uma evolução importante no uso da madeira. Atualmente, a propriedade trabalha com tostagens mais leves e reduziu a participação de barricas novas, procurando preservar fruta e identidade do terroir. Para o Pagodes de Cos, o estágio é mais curto que no grand vin, normalmente entre dez e doze meses, e a participação de madeira nova é moderada.
É nesse contexto que o Pagodes de Cos, criado em 1994, deixa de ser compreendido simplesmente como o tradicional “segundo vinho” de um grande château.
Não apenas um segundo vinho
A própria propriedade hoje apresenta o Pagodes como outra interpretação do terroir de Cos d’Estournel.
Ele nasce de parcelas específicas, distribuídas pela propriedade e escolhidas deliberadamente para sua elaboração. As videiras têm aproximadamente 40 anos em média. Os Merlots vêm sobretudo de solos mais frescos, de argila e calcário, enquanto determinadas parcelas de Cabernet Sauvignon, como Manège e Sapinettes, contribuem com estrutura ao conjunto. Pequenas quantidades de Petit Verdot podem completar os cortes.
Essa filosofia torna particularmente interessante observar diferentes safras lado a lado. Entre os seis anos escolhidos para prova, a participação do Cabernet Sauvignon varia de 44% a 69%, enquanto o Merlot oscila entre 30% e 50%. As diferenças não são meramente estilísticas: refletem também clima, comportamento das parcelas e maturação de cada variedade.
A história e a prova quadro a quadro
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2006 — o equilíbrio 50/50

Corte: 50% Cabernet Sauvignon e 50% Merlot.
O 2006 pertence ainda à primeira fase dessa transformação moderna do Cos. Foi uma safra de condições meteorológicas menos regulares, em que seleção e momento da colheita ganharam importância. O corte chama atenção pela absoluta simetria entre as duas variedades principais: metade Cabernet Sauvignon, metade Merlot. A própria propriedade registra para o Pagodes 2006 referências aromáticas associadas a cassis, terra úmida, bosque, ervas e tabaco fresco, salientando sobretudo sua evolução ao longo dos anos. Nossa nota de prova foi 93 pontos. No aroma apresentou menta e baunilha intensa. A boca foi redonda, com pegada levemente doce, tanino presente, final com tabaco, leve couro.
2009 — Cabernet Sauvignon assume o comando

Corte: 69% Cabernet Sauvignon, 30% Merlot e 1% Petit Verdot.
Três anos depois, a composição muda radicalmente. O Cabernet Sauvignon chega a 69%, maior participação entre as seis safras selecionadas. O ano de 2009 foi marcado por condições muito favoráveis à maturação: verão quente, seco e ensolarado, que permitiu uma evolução prolongada das uvas. O Château considera 2009 uma das safras emblemáticas do Pagodes de Cos e, em uma vertical realizada por sua equipe técnica, destacou especialmente a intensidade e a maturidade alcançadas naquele ano. Na nossa prova foi a melhor entre todas as safras, merecendo 95 pontos. Revelou tomilho, fruta negra e leve baunilha no aroma. Boca bem seca, bastante tanino, acidez presente, final com tabaco.
2011 — um ano de contrastes

Corte: 65% Cabernet Sauvignon, 33% Merlot e 2% Petit Verdot.
O Cabernet continua amplamente dominante em 2011. Mas as condições meteorológicas foram muito diferentes das de 2009. O ciclo foi precoce e marcado por oscilações, exigindo acompanhamento particularmente cuidadoso da evolução dos diferentes setores do vinhedo. É justamente esse tipo de safra que ajuda a entender a importância crescente da viticultura parcela a parcela implantada em Cos. Em uma degustação vertical promovida pela própria propriedade anos depois, o 2011 chamou atenção pela estrutura e pela presença de elementos aromáticos associados a cassis, especiarias e mentol. Na nossa prova apresentou couro e baunilha no aroma, e boca com pontinha doce, menos tanino, menos corpo, e menos profundidade do que a 2009. Recebeu 93 pontos.
2014 — quando setembro mudou a história da safra

Corte: 55% Cabernet Sauvignon, 43% Merlot e 2% Petit Verdot.
O ano de 2014 é talvez o exemplo mais didático do quanto algumas semanas podem modificar completamente uma vindima em Bordeaux. Depois de uma primeira parte do ciclo complicada, setembro trouxe condições excepcionalmente favoráveis ao Médoc: tempo seco e muito sol. O ganho foi especialmente importante para o Cabernet Sauvignon, variedade tardia, que pôde prolongar sua maturação. O resultado foi um corte mais equilibrado que o de 2009 ou 2011: 55% Cabernet e 43% Merlot. Curiosamente, quando a equipe técnica de Cos realizou uma vertical das safras de Pagodes, em 2017, o 2014 foi a amostra que mais chamou sua atenção pela intensidade e pela proximidade estilística percebida com o próprio Cos d’Estournel. Porém, na nossa prova, mostrou-se a safra com menor expressão. Não significa que foi ruim, mereceu ainda 93 pontos. Revelou boca seca, acidez intensa, tanino presente, corpo médio, menos fruta e certa aspereza.
2015 — Merlot na frente

Corte: 46,2% Merlot, 44% Cabernet Sauvignon, 5,8% Cabernet Franc e 4% Petit Verdot.
Nenhum dos seis cortes é tão diferente quanto o de 2015. É o único em que o Merlot supera o Cabernet Sauvignon. É também o corte mais diversificado: Cabernet Franc chega a 5,8% e Petit Verdot a 4%, fazendo com que as duas variedades complementares representem juntas quase 10% do vinho. A composição é particularmente interessante diante da filosofia atual do Pagodes: a propriedade explica que os Merlots destinados ao vinho são cultivados principalmente em setores mais frescos de argila e calcário, onde amadurecem mais lentamente e preservam frescor. No aroma e na boca, a diferença do corte se mostrou muito evidente. Exalou giz, floral, mentol e boca seca, tanino muito intenso, estruturado, corpo médio e final com pegada não muito potente. Atribuímos à essa safra 94 pontos.
2016 — quase um retorno ao meio a meio

Corte: 50% Cabernet Sauvignon, 46,5% Merlot, 3% Petit Verdot e 0,5% Cabernet Franc.
Dez anos depois do 50/50 de 2006, o Pagodes retorna a uma composição próxima daquele equilíbrio. Mas o contexto já era outro. O inverno e a primavera forneceram importantes reservas de água, enquanto o verão se tornou quente, muito seco e prolongado. A capacidade dos diferentes solos do Cos de administrar essa água tornou-se fundamental para atravessar a segunda metade do ciclo. O resultado foi uma composição quase igual de Cabernet Sauvignon e Merlot, complementada por uma pitada de Petit Verdot e uma parcela quase insignificante de Cabernet Franc. O próprio château utiliza o 2016 como uma das safras que exemplificam a personalidade moderna do Pagodes de Cos. Mostrou-se na prova terroso, com couro e goiabada. Boca seca, bem untuoso, tanino intenso mas não rascante, conjunto harmônico, com final muito interessante. A segunda melhor safra da prova, que recebeu nossos 94 pontos.
Resuminho das safras
Vista em conjunto, a sequência de safras mostra que não existe uma fórmula fixa para o Pagodes.
| Safra | Cabernet Sauvignon | Merlot | Cabernet Franc | Petit Verdot | Principal característica do ano |
| 2006 | 50% | 50% | — | — | Safra irregular; corte perfeitamente equilibrado |
| 2009 | 69% | 30% | — | 1% | Verão quente, seco e ensolarado |
| 2011 | 65% | 33% | — | 2% | Ciclo precoce e climaticamente contrastado |
| 2014 | 55% | 43% | — | 2% | Excelente final de maturação |
| 2015 | 44% | 46,2% | 5,8% | 4% | Merlot predominante e corte mais diversificado |
| 2016 | 50% | 46,5% | 0,5% | 3% | Primavera úmida seguida por verão quente e seco |
Os números contam boa parte da história.
2009 e 2011 são claramente anos de predominância do Cabernet Sauvignon. 2015, ao contrário, coloca o Merlot à frente e abre espaço incomum para Cabernet Franc e Petit Verdot. 2006 e 2016, separados por uma década, aparecem quase como duas fotografias de equilíbrio entre as principais variedades.
Mas talvez a diferença mais importante entre eles esteja fora da tabela. Entre 2006 e 2016, Cos d’Estournel atravessou uma década de intensa transformação técnica. A entrada em funcionamento da adega gravitacional em 2008 marcou um ponto decisivo. O trabalho parcela a parcela ganhou ainda mais precisão, e a filosofia de elaboração passou progressivamente a buscar menor interferência e maior leitura do terroir.
Por isso, essas seis safras podem ser vistas também como capítulos de uma mesma história. Não apenas a história das diferenças climáticas entre seis anos em Saint-Estèphe, mas a história de como Pagodes de Cos deixou cada vez mais clara sua própria identidade dentro de um dos terroirs mais célebres do Médoc.
A prova foi realizada no excelente restaurante Marie Cuisine em São Paulo. Participaram, na ordem da foto, os degustadores Gabriel Macedo, Hernani Varella, Regis Gehlen Oliveira (editor do Vinho&Cia), Ricardo Telles, Almir Orem, André Leitão e Ivan Felipe. Nesta prova não houve qualquer relação comercial do Vinho&Cia e dos degustadores com o produtor. A autoria da pontuação e da avaliação é do editor do Vinho&Cia.













