
Por Breno Raigorodsky | Quando me fui da Europa, nos idos de outubro de 1974, depois de alguns anos entre a Itália e a França, saí de Paris em direção a Nápoles, de onde o navio partiria em direção a Santos, São Paulo, Brasil. Fazendo o caminho de carro até Marselha, elegi andar em zigue-zague para seguir as rotas dos vinhos da Champanha, Alsácia, Borgonha e Rhône, cumprindo assim um primeiro roteiro enoturístico aos 25 anos de idade. Foram praticamente quinze dias descendo pelo mapa, visitando a Catedral de Reims, o epicentro das grandes marcas da região, Épernay, o exotismo de Riquewihr e Strasbourg, os telhados desenhados e coloridos de Beaune, algumas das mais importantes vinícolas de cada região, a estrutura monumental genovesa/toscana de Lyon.
Minto, na verdade comecei dois anos antes, quando passava um dia do fim de semana indo de Roma a Orvieto, de Roma a Montalcino, de Roma a Siena, de Roma às colinas em torno da cidade, de trem ou de Fiat 500 do Nicola, primo da Rita, minha mulher à época. Quando de trem, levava um farnel de sanduíche básico para completá-lo com o vinho local; quando de carro, levava uma damigiana de 5 litros vazia para ser preenchida com o vinho a granel de determinado produtor da região visitada.

Pois foi tudo isso que me veio agora, no Uruguai, quando segui uma viagem enoturística planejada pelo grande embaixador do vinho uruguaio, um dos melhores – senão o melhor – produtor do país, Daniel Pisano.
Graças a ele, pude almoçar e degustar o Equilibrio e o Rosado Barricana, na casa/adega do Manuel Filgueira e mulher, na Bodega Los Nadies de sua propriedade, bem no bairro mais francês de Montevideo, enquanto comíamos o melhor gaspacho possível de se imaginar; graças a ele, pude descobrir o bem que os uruguaios fazem com o atum marinado, a merluza negra preparada como se fosse posta de bacalhau e um polvo de fazer inveja aos melhores galegos; por suas mãos, degustei sua linha quase completa de grandes vinhos, incluindo o Axis Mundi Tannat, seu vinho que entrou para a história, desde que a Jancis Robinson o escolheu como o vinho que ela levaria pra casa, numa visita que fez ao Uruguai, no comecinho do século; e o Reserva Personal de Familia (RPF) Tannat, que foi considerado “o melhor tinto do Novo Mundo” pela revista Decanter.
Mas a Pisano, assim como outras vinícolas importantes do nosso pequeno vizinho, não mordeu a isca do enoturismo, vive dos vinhos que produz, desde os idos de 1924. Preferem não ter que escolher entre investir num novo barril de madeira francesa ou numa nova cozinha de última geração. Preferem não trabalhar todos os fins de semana, atendendo como se fosse um restaurante, me conta reservadamente um outro membro dos Pisano, sem desmerecer quem está escolhendo este caminho, até porque a vida não é fácil para quem faz vinho de alta gama, principalmente quando não vem de uma região produtora de muito prestígio, nos grandes mercados importadores.
Dilema que a Garzón – e outras – tirou de letra e com louvor, pois, na maioria, já nasceram assim, são empresas que foram concebidas para fazer ambas as coisas: enoturismo de alta qualidade e bom vinho.

Obviamente, o enoturismo não apenas é uma forma de aumentar o mercado de consumidores, pois fideliza ao agregar o prazer do vinho a lembranças tantas vezes indeléveis. Mas, para isso, depende também do ambiente que o circunda e, no caso do Uruguai, cidades como Montevideo e Punta del Este, o mar, o churrasco de gado de altíssima qualidade, incluindo aí o cordeiro – uma especialidade de nosso pequeno vizinho – e os frutos do mar, as alamedas arborizadas, os bons hotéis, os ótimos museus… tudo cria um estímulo positivo necessário para que o projeto se realize.
Começamos pelo mais emblemático dos destinos desta nova tendência – a Garzón, eleita, alguns anos atrás, a NEW WORLD WINERY OF THE YEAR pela revista WineEnthusiast. Evidentemente, esta homenagem alavancou ainda mais a visitação desta vinícola, que hoje produz entre 1,8 e 2,2 milhões de litros por ano, de acordo com o Emiliano, um funcionário que faz o primeiro atendimento para quem chega de modo desavisado, como foi o meu caso. Assim como ele, quase todos os guias são poliglotas, falando, no mínimo com fluência, português e inglês, até porque são brasileiros mais de 80% dos visitantes.

Garzón é uma realização do bilionário do petróleo argentino Alberto Bulgheroni, que consegue aliar como poucos turismo e vinho de primeira qualidade. Seus vinhos estão na primeira prateleira do Novo Mundo, sua estrutura turística é eleita como um dos cinco melhores destinos para reuniões de trabalho, turismo de grupo e, ao mesmo tempo, visita da mídia especializada.
Impressiona pelas decisões, que vão do Estado da Arte em matéria de tecnologia, considerando aí desde os mais modernos conceitos de defesa ambiental até o conforto objetivo do conjunto arquitetônico – escolhido a dedo sob um solo formado sobre pedras fundamentais, o Balasto (tão fundamentais, que nomeiam seu vinho ícone, Balasto) – passando pela excelência dos vinhos e da comida, assinadas pelo enólogo da Casa, Germán Bruzzone, e pelo sócio ilustre do conjunto, o impagável Francis Mallmann (Já disse uma vez e repito – o inovador Francis está para o churrasco como o Piazzolla está para o tango).
Na visita que fiz, me foram servidos 4 vinhos da Linha Reserva (que custam online $U 870), mas é possível comprar desde a linha de entrada Estate ($U 570) até o TOP da linha, o premiado Balasto, que custa $U 9860. Ou seja, pau pra toda obra, desde o mais correto vinho do dia a dia até o mais pretensioso dos vinhos do Uruguai, muitos vinhos reconhecidos por todos os indicadores do mundo, a começar pela Decanter e pela WineSpectator.
