
Por Regis Gehlen Oliveira | Tudo começou quando saímos de casa com destino a um bom e conhecido restaurante espanhol na afamada região dos Jardins em São Paulo. Pelo virtual do Google, o movimento deveria estar abaixo do normal. Na realidade, fila de espera de pelo menos 30 minutos. Na maior real ainda, aguardar na calçada, sob um calor de 34 graus. Raciocínio rápido, havia outro restaurante a uma quadra na lista dos recomendados para conhecer…
No novo destino, a recepção era bacana, com ambiente moderninho e decoração mista de estilos, com toques de francês a japonês, e ar condicionado funcionando bem. O cardápio pelo código QR mostrava uma diversidade de carnes grelhadas, japas e pizza, pratos tão entrelaçados quanto pinturas psicodélicas dos anos 70. A carta de vinhos continha rótulos normais e alguns um pouquinho além do que poderia se pensar, a mais de 10 mil reais a garrafa. Pedimos uma água e um vinho para mortais. E sem dar tempo mesmo de pensar, cai na mesa, no país mais hídrico do mundo, com tudo que é tipo de água imaginável, uma garrafa de famosa marca italiana, e um precinho nada brasileiro. Ato contínuo, pergunto ao maître o que era um “molho signature”. Sorridente, sob um paletó justinho, me respondeu que era especial, com ingredientes secretos. Pesquisando na Internet, descobrimos que o acionista majoritário do restaurante é um especial piloto brasileiro de Fórmula 1 residente em Mônaco.
Chegou na mesa um hambúrguer com a carne próxima à coloração dos pneus na pista de Monte Carlo, e outro com o beef com o molho secreto, um misto de mostarda com especiarias secas. O maître me disse que vinha de Mônaco. Liguei meu turbo cerebral e imaginei como seria uma indústria de molho secreto no metro quadrado mais caro do mundo e o transporte desse molho para o solo brasileiro. Especial… E me liguei também que no mundo existem pilotos… E chefs especiais.
Programa seguinte, uma sorveteria libanesa nas imediações… Fila enorme na porta… Nas proximidades do caixa, duas divisões, sendo uma para o atendimento preferencial. Quase no momento para fazer o pedido, surgiu um preferencial. O cidadão parecia um armário daqueles de madeira maciça existentes nos grandes palácios europeus, com a diferença de que a pintura nele eram tatuagens espalhadas tal como pichações em muro do Bronx, em Nova York. Talvez tivesse 30 anos, assim como sua companheira. Pensei como ele passou no vão da porta de entrada da sorveteria. Num carrinho de bebê, confortavelmente sentada, estava, sob tração do armário, uma criança de uns 3 anos. Todos necessitados de atendimento preferencial para tomar sorvete… Por um minuto achei que poderia ser a fila de tatuador, uma sorveteria com esse serviço também, num conceito especial. Se dá pra misturar carnes grelhadas, com japa e pizza, por que não algo preferencial assim?
Trocando da fila do caixa para a de pedido do sorvete, saiu do atendimento preferencial um cabeça branca bronzeado e saltitante, a passos largos e firmes, com 4 copos de sorvete na mão em direção à família que o aguardava na mesa. Tadinhos dos filhos e da mulher mais nova, deveriam estar cansados da piscina pela manhã… Assim era importantíssimo o cabeça branca bronzeado e saltitante fazer o serviço de mula.
Vez de um careca, mais bronzeado ainda, com jeito de sessentão e de que tomou muita vitamina na vida, puxar a namorada pela mão… Em bom som alardeou para ela a vantagem de sair com ele. Nessa hora, no balcão de sorvete já havia mais atendente de preferencial do que dos mortais que queriam apenas a sua vez. Mas eis que chega uma turma, com um bacanão na faixa dos 20 e camiseta coladinha no peito bombadinho, uma menina de uns 4 anos andando com a mão dada, outra menina de uns 20 também, e dois adolescentes com ar de shake natureba. O suposto pai pega a garotinha de 4 no colo e bora lá para o atendimento preferencial. A menina pega o seu sorvete, desce do colo e sai andando com a casquinha pelo salão, ela que talvez um dia aprenda o que é preferencial…
Ainda na fila, fui pesquisar no mundo virtual do Google os significados de especial e preferencial…
