
Por Breno Raigorodsky | Lentamente, fomos seguindo a voz feminina do GoogleMap, que nos dizia para caminhar a 30km/h naquela estradinha vicinal, em meio a gigantes e modernos moinhos de vento, captadores de energia eólica, cercada por florzinhas do campo multicoloridas de todos os lados. Nesse caso, apesar dos tufos vermelhos, violáceos, brancos e azuis, o amarelo prevalecia sempre.

De repente, um caminhão gigante, totalmente fora de padrão – como um touro em loja de cristais – nos pede para estacionar. Penso logo em um acidente logo adiante, mas não: o motorista me pede informações. “Esta estrada vai pra Palermo?” Respondo que sim, com toda a força dos meus pulmões, pois o caminhão faz muito barulho, não sei se minha voz consegue penetrar na cabine do veículo enorme, mas orgulhoso de poder ajudar em italiano.

De repente, um mar de ovelhas da cor de ovelha aparece também do nada. Trata-se de uma nuvem de ovelhas, incontáveis, que nos obriga a ficar imóveis, na esperança de que, um dia, a nuvem se dissipe e que nos livre incólumes, em direção ao nosso destino. De repente, nos perdemos. Graças à perda de sinal do GPS, erramos o caminho, atravessamos uma estrada de ferro e entramos num lamaçal.
Saímos sem saber se devíamos seguir para o norte ou para o sul. Quando, então, um anjo sobre rodas aparece para nos guiar: a proprietária de um Bed & Breakfast, que conhece nosso destino e nos guia gentilmente até lá, um quilômetro e meio adiante — a Agricola Regaleali. Um ponto de referência entre Palermo e Agrigento, no meio daquele nada, um ponto de referência no universo do vinho. Eles que viveram o fermentado de uva desde 1830, que passaram por todas as fases que a agricultura siciliana pode passar: primeiro trigo; depois, trigo e vinho; depois, trigo, vinho e olivares; depois, vinho, cada vez menos trigo, horta, especiarias, figos, amêndoas e…beleza, beleza, beleza, até onde os olhos podem alcançar.

Chegamos, vimos e vencemos os obstáculos, para finalmente sentarmos sob um ombrelone, em bancos de madeira, em torno de uma mesa, onde nos servem sálvia frita e uma massa triangular feita em azeite extra-virgem, feita de grão de bico. O todo regado a um delicioso e pleno de borbulhas, rosé de Noir, 38 meses de autólise, Pinot Nero 100%, ácido, seco, longo, com o petillan duradouro, mais de 15′ na taça.
Ouvimos tantas histórias. Tantas explicações. Soubemos que a terra, comprada de um árabe, no primeiro quarto do século XIX, continha 1200ha, mas que fora reduzida pela reforma agrária imposta pelos governos progressistas do pós-guerra italiano: ninguém pode ter mais de 500ha. O restante que se torne legalmente minifúndios familiares! Assim, terminamos o primeiro ato desta peça fabulosa, chamada Tasca d’Almerita!
