Itália | Por Breno Raigorodsky | Estava escrito nas agendas, o encontro da Confraria AWG no restaurante Così da rua Haddock Lobo, em São Paulo, seria quente, com uvas autóctones brancas da Itália.
A prova mostrou-se de bom nível, com 7 amostras. Sicilia, Sardenha, Toscana, Puglia, com direito a Etna. Engraçado, eu peguei o que tinha, não saí pra comprar a minha garrafa. Teria levado um Friuli, um Marco Feluga, se tivesse ainda o Molamatta, visto que o Franz Haas Pinot Grigio não me dava muita certeza… Afinal, Pinot Grigio é francesa (Pinot Gris), por mais que esteja dando tão certo nesta Itália do norte. Imagino que todos fizeram o mesmo, mas alguns com mais orgulho que outros.
O Helios Cantina Carbone que levei mostrou-se fraco para a turma. Vermentino e Nasco, 50% pra cada uva, um vinho da Sardenha, de um IGT Isola dei Nuraghi. Se fosse uma degustação aberta, o exotismo da sua procedência, influenciaria sua avaliação. A presença da uva Nasco, praticamente ignorada até na Itália, daria um toque de curiosidade a mais.

Pois bem, Sardo ou Toscano, a Vermentino foi uva mal avaliada pelo grupo! Saímos confirmando um comentário que rolou na degustação, sugerindo que se tratava de uva menor. E, no entanto, pasmem, um Vermentino sardo é destaque para a Decanter inglesa, para a revista Wine Spectator e outros críticos, e está entre os 12 melhores vinhos da Itáliasegundo a revista Italia a Tavola. Trata-se do Il Vermentino di Gallura Bèru, DOCG, da cantina Siddùra, que faz parte do exclusivo grupo dos “Super-Italians”, os 12 melhores italianos que representam o futuro da enologia italiana. Faz sentido, porque afinal produtores de prestígio indiscutível, como Rocca delle Macie de Maremma e Antinori do Chianti Classico, apostam milhares de garrafas nesta cepa e, pelo visto, estão bem felizes com os resultados.
Tirando a polêmica sobre os Vermentino, os vinhos eram bons, tínhamos grandes amostras, como as campeãs Catarrato Etna The Bianco Benanti, e Fiano, apesar da ausência importante de alguns vinhos que são top de linha na Itália, como os Verdichio, Lugano, Garganega – responsável em parte pela Soave vêneta – e tantos outros que são ótimos na exportação, melhores ainda no consumo local.
O QUE UVAS AUTÓCTONES BRANCAS ITALIANAS PODEM TRAZER DE PRAZER
Acho que os próprios italianos não valorizam seus brancos de qualidade superior. Lembro-me de uma longa entrevista que fiz com o Pio Cesare, presidente herdeiro do reinado Pio Cesare de Alba, um dos mais importantes produtores de Barolo e Barbaresco: “por que dois Chardonnay e nenhum branco autóctone?”, perguntei. “Gostamos muito de nossos brancos, não nos importamos com o que pensam os jornalistas, não apostamos muito nas uvas locais, como Roero e Arneis, nossos clientes estão satisfeitos, tanto quanto nossos enólogos e outros responsáveis, respondeu ele do alto de seu trono piemontês”.
Asprino di Aversa, região de Napoles – ainda tão pouco conhecida fora da Itália -, é um dos que merecem aposta mais constante (https://www.tenutafontana.com/alberata/). Os já citados Soave e os Alto Adige são exceções, sempre mantiveram uma multidão de fãs por toda a parte, mas o que dizer do que segue? Para a Wine Enthusiast 2021, o 2º colocado entre 22.000 vinhos degustados foi o Bucci Verdichio dei Castelli di Jesi, importado pela nossa Decanter, vendido ao preço de R$124,00. Pela mesma prova, o Soave Classico Pleoropan ficou em 15° lugar; como todo Soave, mescla Garganega e Trebiano.
Nas escolhas de exportação é que temos problema de imagem, o que me levou, uma vez, a dar uma aula cujo título era “O pior e o melhor estão na Itália”. Não digo que os Valdobiadene são horríveis, mas estão longe de competir com os grandes espumantes portugueses, italianos e espanhóis, para não dizer dos franceses. Competem mais com os Asti, que atingem não mais de 8% de álcool, para não dizer dos Lambruscos de Bologna e arredores, vinhos que muitas vezes envergonham os produtores mais sérios.
Uvas do Etna, da Sardegna e da Puglia são tão válidas como tantas outras da Itália, mas não são as que os italianos mais tomam, estão mais novidadeiras, pois a Bota consome e exporta milhões de litros por ano.
Em suma, a prova foi ótima, mas certamente o universo demontrou-se amplo demais. Quem sabe aproveitaremos bem mais se fecharmos o cerco por regiões da Itália ou por cepa numa próxima degustação!
(Fonte: Vinho&Cia)
(Legenda: membros da Confraria AWG | Crédito: Jornal Vinho&Cia)
