
Por Breno Raigorodosky –
O MARKETING DO VINHO – Uma garrafa que nasceu de um litro, por ideia do marketing de seu representante nos EUA, que queria uma garrafa que falasse ao bolso do consumidor e que se diferenciasse na gôndola, formada quase sempre por garrafas de 750ml. A ideia era boa, mas longe de ser inédita.
Em torno de 1930, regulamentaram-se as garrafas para facilitar e demarcar as regiões produtoras. O Loire, o Jurà, mais Bordeaux, Borgonha, Rhone, Alsácia e Champagne eram identificadas à distância, devido ao formato de suas garrafas. Havia, nessa regulamentação, até a estrangeira mais importante na época, a garrafa bojuda coberta de palha vinda da Toscana, o Chianti.
Na outra ponta do raciocínio mercadológico, a ideia de oferecer mais – trata-se de ¹/³ de vinho a mais do que os 750ml usuais – por um preço atraente, foi aos poucos conquistando mercados importantes, entre consumidores do mundo inteiro. Notadamente, os Bag-In-Box de vários litros, principalmente nas versões de 3 litros e 5 litros, apropriadíssimos para estabelecimentos que vendem vinhos mais descontraídos, em taças de 150ml, jarras de ¼ e meia garrafa.
Assim, o “gesso” do bizarro 750ml, cruzamento de dois padrões de medida consagrados pelas relações comerciais dos consumidores ingleses (que só falavam a língua do galão) e dos produtores franceses – que só sabiam se comunicar em língua de metro – desde antes da Guerra dos 100 anos (1337 – 1453) – que dividiam os 225 litros do barril onde o vinho descansava e era transportado pelo Canal da Mancha, transformado na Gran Bretanha em 300 garrafas – perdeu sua rigidez, mantida por tantos séculos.
O marketeiro norte-americano percebeu que a vinícola em foco tinha o nome ideal para uma descontração: FunckenHausen de San Rafael-Mendoza, uma vinícola de pouca produção, que, se em português apenas sugere algo malandro, em inglês e em alemão pode ser livremente traduzida por “A Casa do Foda-se”.
O VINHO
Ou seja, só faltava o vinho ser bem-feito para obter o devido sucesso. A vinícola precisaria vender o que produzia e expandir seu negócio, pelo ciclo ideal da mercadoria.
O FuckenHausen se deu bem no Brasil. Por anos o defunto e excelente restaurante La Frontera vendeu, com bom resultado, sua versão rosé.
O VINHO ROSÉ
Aqui, mais uma digressão: O forte preconceito contra os vinhos rosé deve-se a muitos fatores, entre eles a ideia de que o vinho rosé não tem personalidade, bastando ser bonitinho na taça e descompromissado. Essa leitura desconsidera que o vinho rosé, em ambientes quentes e úmidos como os de alta salinidade e alto índice pluviométrico como os do mediterrâneo e os das costas marinhas do Brasil, é ideal no casamento com proteína animal, vinda das águas, seja em forma de polvo, lula e peixes de rocha, seja nos formatos bivalves dos mariscos de casca preta e branca, nas conchas da vieira e da ostra, e nas vôngoles, lambretas e almejoas. Vinhos de expressão, com baixo residual de açúcar, são consagrados para acompanhar diversas sopas mais gordas como a Cacciucco livornesa e a Bouiallabaisse marselhesa, por exemplo.
De mais a mais, vinhos rosé como Bandol, Lyrac e Tavel sentem-se profundamente ofendidos, por subutilização, quando alguém ousa levá-los à taça na companhia de uma pedra de gelo!
A VINÍCOLA
Assim é a vinícola de nome alemão, vinda diretamente da Argentina andina. Ela produz vinhos de grande acidez, em terras a mais de 850 metros de altitude, influenciada diretamente pelas margens do rio Diamante, em seu último terraço fluvial, culminando num terroir, cuja proximidade da pré-cordilheira sugere temperaturas mais frias, além do subsolo arenoso com pedras de aluvião e formações com nitrato de sódio em profusão, que alimenta e garante uma drenagem ideal.
O OLHO, O NARIZ E A BOCA
Na versão degustada num destes dias de dezembro, a safra de 2023 esteve no ponto em acidez e manteve o gosto, o álcool em torno dos 12,5%, a cor e um nariz de flores brancas e delicado nariz de frutas vermelhas das safras anteriores – e ainda um ponto turvo, devido à rápida filtragem, o que lhe dá mais um toque de originalidade – com a dominante Malbec e um pouquinho de Cabernet Franc e menos ainda de Cabernet Sauvignon. A proporção mudou um pouco de 2021 pra cá, malbec se tornou ainda mais dominante, mas os cabernet mantiveram-se um o dobro do outro.
NOVIDADE PREMIADA
A vinícola não é apenas os vinhos que se fizeram em garrafas de 1 litro, em suas versões Tinto, Branco e Rosé e que conquistaram importadores norte-americanos, mas sul-americanos de língua portuguesa também.
Agora ele vem também com uma série novidadeira, um subproduto da linha FunckenHausen, que inclui até um vinho laranja.
O Malbec desta série foi até contemplado como vinho de altíssima gama por certificadores da região”
Mas o que mais me impressionou mesmo, foi esta homenagem que fizeram à terra do Reno alemão, terra natal do proprietário da vinícola, um Riesling acrescido por um leve toque de chardonnay, álcool e acidez na medida, apesar dos 14,5% de álcool, totalmente integrados ao todo, um vinho seco como os trocken originais, mostrando que um vinho é melhor que outros, quando o enólogo direciona seu produto para um campo estudado, trabalhado, familiar.
ONDE, QUANTO
FunckenHausen é representado atualmente pela Winelovers, e custam no site da importadora em torno dos R$140,00, na versão de um litro e em torno dos R$190,00 na versão co-fermentada.
