
Por Breno Raigorodsky | Uma vez na Vinitaly, no começo do milênio, aproveitei parte do tempo na Feira para comparar vinhos que pareciam semelhantes, como os vizinhos Montalcino e Montepulciano, os Rossi, um contra o outro, e os Brunello x os Nobile, todos feitos essencialmente com a Sangiovese, apesar de serem tratados localmente por nomes diferentes, Sangiovese Grosso e Pugnolo Gentile, respectivamente. No meu paladar, houve empate nas duas provas, seja entre os Rossi dos vizinhos, seja entre os grandes deles. Ocorre que, em nome da fama do Brunello, o Nobile acaba sendo 30% mais gentil para com o bolso do consumidor!
Aproveitei igualmente para testar vinhos com a uva Nebbiolo, dos tão emblemáticos Barolo e Barbaresco, mas também dos nada desprezíveis Ghemme, Valtellina e Gattinara, sem falar de uns tantos Langhe Nebbioli que pude comparar na taça.
Foi uma experiência e tanto, ser guiado por mim mesmo, de acordo com o tamanho das minhas dúvidas em oposição às minhas certezas. Em menos de quatro horas, pude aprender mais do que em seis meses de aula e degustações em cursos de vinho.
Certa vez, no Encontro Bienal da Mistral, que acontece sempre no Hotel Hyatt SP, decidi me dedicar por horas a comparar os Pinot Noir que havia por lá, confrontando denominações de origem, com vinificações, com safras, com propostas vínicas, com preços. Pude consolidar e contradizer uma série de conceitos, abandonando certezas teóricas que a prática da degustação desmentiu. Na época, dei a volta ao mundo, comparei os excessivamente frutados chilenos da Leyda com os da Nova Zelândia, com os do Loire, para finalmente cair de boca na Borgonha, não sem antes fazer um pit stop no Oregon. Confirmei o que já pensava antes: gosto demais do Chambolle, principalmente quando ele é um 1er Cru, mas gosto igualmente de um Nuits-Saint-Georges, muito mais concentrado, no limite identitário da Pinot Noir.

Neste último Encontro Mistral, o de 2025, pude degustar com tranquilidade – se é que é possível falar de tranquilidade numa barraca superprocurada como a de Joseph Drouhin – três vinhos que escolhi para comentar, apoiado nos pitacos de Christophe Thomas, representante da Casa, que me servia gentilmente. Comparei o Pouilly-Fuissé com o Meursault 1er Cru, se é que é possível comparar vinhos de terroirs tão diferentes, resultando em um vinho riscado de giz, com uma mineralidade orgulhosa de si, contra um típico, mas cheio de personalidade individual, que prima pelo acolhimento na boca, pela elegância no nariz, pela untuosidade majestosa. Igualmente, degustei em seguida os dois grandes tintos expostos: o Vosne-Romanée 1er Cru 2020 com o Clos des Mouches 2021 e me senti nas nuvens, uma sensação tipo “nota 100” em ambos… não seria demais dizer que são a expressão líquida do paraíso para quem gosta desse tipo de mágica em taça, que mescla extrema elegância e gastronomia em médio corpo, sem excessos, com longevidade e evolução.

Poderia ter ficado por aí e estaria muito bem satisfeito pelo que o Encontro me ofereceu, mas não me contive: degustei muito mais coisa, incluindo um teste de taça na barraca da Riedel. Eu, que nunca fui dado a muita onda com taça, com onde tomo meu vinho, acostumado que sou ao vinho-alimento, aquele que se bebia em copo de queijo de Poços de Caldas enquanto preparava o rango, quando era estudante, jovem adulto, como qualquer outro jovem europeu daquela época. Mas sou obrigado a admitir: a taça mais aberta traz sutilezas nos aromas, nível aromático que a taça mais fechada não traz, por mais que estejamos falando de meras migalhas organolépticas. Sou obrigado a concordar com uma melhora sensível, apesar de mim, apesar de não me ver gastando tanto dinheiro na taça e outros componentes do mundo do vinho, quando ele – o vinho – se basta.
Dei um salto para um outro mundo, sem sair da Europa, sem sair da latitude entre 45° e 47°: fui ao Ca’ del Bosco da Franciacorta, mais pra perguntar: onde está o Pinero? Por que nunca mais veio ao Brasil?
Ca’ del Bosco é Borgonha na veia, é Champagne na veia, pretende trazer para a Lombardia todo o pacote borgonhês: clima, altitude, solo e manuseio. Além dos espumantes de alta gama, produz bons vinhos tintos. Antes, uma década atrás ou mais, encontrava-se a preço justo um encantador Pinero, tradução italiana do Pinot Noir, mas agora este não vem mais ao Brasil. A resposta foi surpreendente, vinda do Alberto Frea, responsável pela barraca: pouca produção, caro demais etc. Pensei em dizer que, na vizinhança da exposição, havia vinho que superava os R$ 3.000,00, que o Pinero não estaria mal se estivesse por aqui, mas fiquei calado, decepcionado, como alguém que vai à estação de trem esperar o amigo e descobre que o veículo adiou a partida, sem aviso prévio. Para sufocar o mal-estar, contentei-me com o Corte del Lupo que o Alberto me ofereceu como consolo, um bordalês muito interessante e surpreendente, para quem sempre tem os olhos voltados para o leste e não para o oeste da França. Mescla de Merlot (49%), Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Carmenère, as quatro uvas vinificadas separadamente. A mistura é feita depois da malolática, e aí vem a especificidade – 26 meses em tanque de aço e barricas de carvalho francês, além de 8 meses de garrafa antes da comercialização. Realmente, lembra um Margaux, como se podia esperar de um vinho bordalês feito por um produtor que ama a Borgonha.
Obviamente, para não perder a oportunidade, eu – que acabei de voltar da Sicília – não podia deixar de passar na barraca da Tasca d’Almerita, louco para relembrar um Frappato di Vittoria que conheci por lá. Mais uma decepção: não tinha para degustar, não estavam servindo. Mas os Regaleali tintos – particularmente o Cygnus Blend (Nero d’Avola + Cabernet Sauvignon) – caíram super bem… assim como os Etnas, um deleite para quem gosta de vinhos menos concentrados.
Outras coisas legais?
Muitas, particularmente o Dão Quinta da Pellada, o Carrocel Touriga Nacional 100%, que tanto agradou ao paladar dos mais imponentes certificadores. De fato, entrega bem: na corrida das uvas, a autóctone regional está muito bem representada! O que dizer então do uruguaio do bem, o Daniel Pisano? O RPF Pinot estava dando sopa, e fui lá prová-lo para confirmar o que sabia de antemão – a Pisano é craque; não por acaso é indicada como a melhor do Uruguai por gente como a Jancis Robinson, assim como seu Tannat é tachado como o melhor tinto do Novo Mundo, pela Decanter inglesa. Sabendo disso, foi bom dar uma passada geral nas bodegas argentinas do clã Catena Zapata e nos chilenos Lapostolle.
Fiquei de criar uma espécie de guia de visita em feiras, como este Encontro Mistral.
Fiquei de sugerir meios de otimizar o passeio, pensando na formação e manutenção de uma adega equilibrada e sempre de melhor qualidade. Pensei em sugerir que não se afoguem na ansiedade de conhecer os ícones que dificilmente seriam degustados se não fosse nessas condições. Imaginei recomendar um guia por uvas, por regiões ou por vinificação… mas não consegui.
Talvez porque, em matéria de vinho, há um mix de subjetividade e objetividade muito presente. Você pode eleger, por exemplo, degustar apenas vinhos de mínima produção, de grande estresse das plantas, de madeiras de primeiro uso, segundo ou terceiro, de barris de 225 litros ou tonéis de 500 ou botes de até 5.000. Você pode eleger aqueles vinhos que usam leveduras espontâneas, como vinhos cujo terroir é impactado por salinidade marinha… Em suma, é isso aí!



