
Por Breno Raigorodsky | Fiquei de escrever sobre a degustação que fizemos no restaurante e importadora. Demorei! O Walter Tommasi, meu vizinho de coluna, escreveu o artigo seguinte: https://tommasinovinho.com.br/2025/10/18/africa-do-sul-e-seus-chenin-blanc/
Quase desisti de escrever, porque ele fez o trabalho de casa muito bem, como sói acontecer, salvo poucas exceções – o Walter é constante, atento e persistente.
Mas as nossas pegadas nunca são as mesmas, digamos que se complementam, além do que tantas vezes não temos a mesma opinião sobre os vinhos que degustamos, o que é humano, já que vinho é a essência da pororoca que se forma, sempre que o assunto envolve objetividade e subjetividade, emulsionados, sendo difícil definir o que é um e o que é outro, por mais que pretendamos seguir a objetividade.
Fico com a primeira informação que também me impactou – a impressionante presença da África do Sul no mundo do Chenin Blanc, com 51% de tudo o que se cultiva em todos os continentes, sendo que a França vem em segundo lugar, com “modestos” 34% de todos os pés cultivados da cepa!
Por quê? De onde vem esta preferência tão absoluta por esta uva?
Evidentemente, Chenin Blanc não é a uva mais popular dentre as brancas, mesmo na França, perde em importância para a Chardonnay da Borgonha, para a Viognier do Rhône, mesmo para a Sauvignon Blanc, da sua conterrânea Loire, onde a rival é responsável pelos Sancerre e Pouilly Fumé, enquanto ela fica com os Vouvray, tão distintos e exclusivos, mas muito menos importantes para o mercado. Afinal, enquanto a irmã e vizinha foi construir sua fama em Graves e em Barzac, espalhando-se pelo Novo Mundo, a partir da Nova Zelândia, mas também pelo Chile e todos os outros países produtores da América.
Esta preferência nacional – pois consomem-se vinhos com ela de todo jeito no país: fresca, frutada e jovem; envelhecida, elegante e longeva; espumantes despreocupados e espumantes bem classudos – se estende para as exportações também, fazendo dos vinhos brancos uma marca tão importante quanto os vinhos tintos com as uvas do Rhône, particularmente as Grenache, Syrah e Mourvèdre.
Há, é verdade, uma identidade nacional, fruto do cruzamento histórico da Pinotage, mescla de Pinot Noir e Hermitage (o nome que se dá à Cinsault por lá), produto que nasceu no primeiro quarto do século XX e que frutificou, ganhou status de uva nobre.
Mas como em outros casos conhecidos, de uvas que identificam regionalidade, isso anda meio superado, até no Uruguai, na Argentina, no Chile e na Califórnia, pois uvas como Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot, Syrah, andam fazendo tanta fama quanto as uvas ícones destas regiões.
Mas voltemos ao Chenin Blanc. Ela se explica em parte pela experiência holandesa por lá, desde quando a Cia. das Índias Ocidentais fez do país o mais importante império, logo no século XVII. Naquele século, o conhecimento que se tinha de vinhos começava pelo longo e intenso aprendizado que tiveram ao dominar o comércio, Bordeaux X Inglaterra, construindo e consolidando preferências de consumo e orientação de produção, onde inauguraram a fórmula triangular que se mantém até hoje em Bordeaux, onde proprietário e enólogo se aconselham com a ponta comercial.
Em segundo lugar, é preciso reconhecer a grande importância dos huguenotes franceses do Loire, que fugiram da Europa por conta da guerra cruenta entre católicos papais e protestantes, que se deu na França entre 1562 e 1598, e que foi responsável pela morte de mais de 3 milhões de pessoas. Os recém-chegados eram gente do campo, que trouxeram seus hábitos de cultivo, entre outros, muitas mudas da Chenin Blanc!
A degustação que se deu no restaurante Altruísta concentrou-se em amostras de vinhos com ela, num esforço de comunicação bem concentrado. Tivemos sete amostras entre vinhos jovens e vinhos muito elaborados, como o artigo do Walter frisa com propriedade.
Minhas preferências? Fiquei com o Boschendal, o mais pronto, talvez o mais completo da amostra, mesmo que alguns mais jovens mostrassem mais tipicidade e o último da série, o Belingham, fosse eventualmente mais nobre e com melhores condições ainda de envelhecer bem.
Ocorre que Boschendal não é apenas, e – hoje em dia – principalmente, o nome de um vinho, mas de uma instituição turística, que envolve esta tendência de fazer grande hotelaria em torno das vinícolas, tendência que começou na Austrália e se espalhou por todo o mundo do vinho.
Boschendal carrega milhares de pessoas por ano, seja da própria África do Sul, seja de turistas de toda parte, oferece várias degustações possíveis, vários cardápios com mil especialidades, quartos e cabanas… um verdadeiro resort, com cenário deslumbrante. Mas nada disso conta quando o assunto é o líquido contido na garrafa que você comprou, para beber com os amigos ou com a família e que deve valer o que custou (no caso, algo em torno de R$ 250,00). Boschendal sai-se muito bem, por mais que eu sempre ache tudo muito caro, acho que – a dinheiro de hoje, comparado com tantos outros vinhos – ele tem tipicidade e qualidade no plantar, na colheita, no elaborar, que se apresentam favoravelmente a cada gole.


