Terapia do Vinho 2 – O rei da harmonia, a harmonia dos reis

Breno Raigorodsky | Vinho combina com quase todas as comidas, até porque vinho é um sem-número de produtos diferentes; é coisa bem versátil, né?

Tem branco, tem tinto, tem rosado, tem espumante, tem frisante, tem doce, seco, frutado, bem jovial, bem pesadão (aqueles “malbecões” que são o caminho de entrada para cervejeiro e bebedor de Coca-Cola).

Tem vinho que custa R$ 20,00 e tem vinho que custa R$ 150.000,00 a garrafa… e os dois têm o direito legal e legítimo de usar o nome vinho, que significa – em todos os países – fermentado alcoólico de uva.

Vinho está acompanhando a comida e/ou por ela vem sendo acompanhado desde que construíram o Templo de Jerusalém, desde que a Babilônia foi fundada, antes que os “Platões” da vida começassem a filosofar. Então, há que respeitar a dupla que tabela tão bem, não importa que prato for, em que altitude, a que temperatura ambiente.

É verdade que um tipo de vinho pode não ir tão bem com uma comida específica, por isso tem tanta gente falando sobre isso, harmonizando o sólido com o líquido na refeição. Algumas verdades, neste quesito, nem são tão verdades assim, até porque tem várias formas de tentar combinar uma coisa com a outra – a primeira, e talvez a mais aceita por todos, é pela tradição, ou seja, pelo uso regional, ou seja, aquela que foi testada por anos; não adianta o espertinho da vez querer contestar. Um bom exemplo disso é a Bouillabaisse, uma sopa de peixes provençal que costuma ser consumida com um vinho rosado com bom teor alcoólico, boa estrutura e ótima acidez, que é para lidar com a gordura do prato.

A segunda é pelo contraste: produtos naturalmente salgados e gordurosos, como o churrasco, determinam que o vinho não deveria ser tão alcoólico, nem demasiado redondo, nem sequer com um ataque adocicado (por conta do álcool em excesso). Mas, mesmo assim, o mundo acha que é o “malbecão” que vai bem com carne…

E tem até harmonia pelas moléculas, pelo palato, aquela que é a mais científica das harmonizações (https://francoischartier.ca/papilles-et-molecules/).

Mas, no meu entender, harmonia mesmo, harmonia de verdade, é estar bem com o seu pedido, satisfeito com o que está bebendo, com quem está bebendo. Peça um vinho acima da sua capacidade de pagar por ele e você vai consumir num estado de apuro, só vai ficar pensando no bolso, nem na comida, nem na bebida. Peça num lugar que está tocando funk pesado, com luz estroboscópica piscando na sua cabeça, e vai ser difícil se concentrar em seu prazer, não importa se a comida e o vinho estão se dando bem. Beba com quem você não gosta, discuta alguma coisa pesada na refeição e nada vai cair bem; a memória daquela experiência não será boa, mesmo que o vinho seja um Château Ausone (um dos três grandes de St. Émilion), mesmo que seja um Chambolle da Borgonha, mesmo que seja um Gran Enemigo Cabernet Franc.

Portanto, antes de escolher o que comer e o vinho que quer beber, escolha bem o ambiente e a companhia.

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