
Por Breno Raigorodsky | Costa Boal aparece com brasão familiar, coisa de 1857, Cabêda, vilarejo que jamais ultrapassou uma população de mil pessoas, e que se mantém quase equidistante das praias do Atlântico e da fronteira com a Espanha, a noroeste da Foz do Côa.
De lá, António Boal, manda-chuva desde 2011, conduz a gestão da vinícola que cresce sem se perder no crescimento, sem jamais trocar o quesito qualidade por aquele da quantidade, sabe-se lá por qual ambição — talvez a de atingir a excelência e, com ela, a fama — porque ambição sempre há de existir em uma empresa que empresta seu nome a vinhos que povoam parte do Douro, Trás-os-Montes e Alentejo; que trabalha com diversas castas portuguesas tradicionais e com vinhas que atingem, muitas vezes, a idade de 70 anos ou mais.
É do mais autêntico e certeiro objetivo priorizar vinhas velhas e com elas produzir vinhos de autor, que às vezes chegam a uma produção mínima de 500 garrafas na safra, como no caso do Homenagem de 2011 ou do Garrafeira 2022 branco, que ficou nas 700 unidades.
São 60 ha que se espalham por tantas localidades que é difícil reter sequer ¼ delas, particularmente no Douro, tendo parcelas que melhor se aproveitam da altitude, do clima e do ligeiro ar Atlântico, estando em Alijó, Murça, Mirandela, além da presença em Palácio dos Távoras e Flor do Tua, por Trás-os-Montes e em Estremoz, no Alentejo.
Paulo Nunes, o enólogo onipresente, se diverte com a variedade de uvas, que resultam ainda mais diversas, quão diversos são os terroirs. Pois é um prazer trabalhar, não apenas construir vinhos de assinatura, onde o Chardonnay do mundo aparece casado com a Antão Vaz em uma comunhão de bens que parece inquebrantável, comparável com os melhores Chardonnay que esta boca que vos escreve teve oportunidade de provar. Seus 6 meses de madeira igualam a presença das partes, trazem as características organolépticas da uva internacional, com sua untuosidade, com seu brioche, a rivalizar com o aroma tão marcante do seu parceiro regional, tão tropical, que parece vir do outro lado do mar, tão bem estruturado, que parece algo nascido bem mais universal… e assim se complementam, como todo casal deveria se fazer.
Beleza equivalente, o Homenagem rosé dá um banho em tudo que tem esta cor, ao menos tudo que não seja Champagne, tudo que não seja Mâcon. 600 Magnums, mescla Tourigas e Tinta Roriz, com descanso de seis meses em barricas de carvalho francês, depois de fermentação espontânea e ligeira prensagem de cacho inteiro, todo o processo em madeira francesa de 500 litros. E que delicadeza na boca, com uma cor provençal — atestando o pouco contato com a pele — que pretende esconder por um tempo o corpo poderoso que se mostra na boca, resistente ao mais gorduroso alimento, feito de camarões e porco, de polvo com guanciale, quem sabe uma Caldeirada Completa, um Pato no Tucupi, com toda a presença de seus azedos, de sua goma e jambu.
Pena que custe o que custa, mas comparado com outros tantos que já provei, arrisco dizer que vale, afinal são 1,5 l de grande artesania. (Imagem gerada por IA/Gemini)
