A Balzaquiana Zahil

Brasil | Por Breno Raigorodsky | Com a garra e a capacidade de sedução ainda no lugar certo, mas com a experiência de quem levou alguns tombos, mas manteve a compostura, taí a Zahil, ocupando um lugar especial entre as melhores importadoras do país. Importa o número de anos que uma importadora atingiu? Importa, desde que ela mantenha em sua carteira de vinícolas, algumas que, elas sim, importam. Rioja Alta, Henri Gouges, Trimbach, Sandeman, Rutini… no caso da Zahil são 37 anos. Não são para quem quer, são para quem pode.

Dentre estes tantos anos, tenho umas recordações inesquecíveis. Rioja Alta 890, único Rioja a fazer frente aos Tondonia que estão fundos na minha memória.

Nos tempos do restaurante La Frontera, a Zahil era a parceira com garra, aquela que investe fundo para ocupar um espaço nobre no local. Lembro de uma degustação pela paz no Oriente Medio, Líbano X Israel, Vale do Bekaa X Golan. Deu empate, todos os vinhos eram excelentes.

Tenho uma outra memória de estimação, de um tempo que comprei um lote de Rhone Rouge, que era oferecido por menos da metade do preço. O vinho era apresentado sem a cápsula que cobre a rolha. Todas elas, as cápsulas, tinham sido delicadamente cortadas, mostrando as rolhas, estas em perfeita condição. Comprei uma garrafa, chamei uns amigos para degustar comigo. Estava ótimo, melhor do que sempre. Um desses, ele mesmo um importador, matou a charada: este vinho tinha ficado em algum ambiente quente, o porão de um navio ancorado na África, a uma temperatura de uns 60°C. As rolhas subiram, arrebentaram as cápsulas, arruinando o poder de venda destes vinhos. Mas não arruinaram o fundamental – o poder de seduzir que o vinho tinha, muito pelo contrário. O calor lhe fez bem, arredondou seus taninos, o vinho estava como se tivesse ao menos 10 anos de guarda, pronto e macio e robusto e complexo, uma beleza! Obviamente, comprei tudo que pude.

Pretendia me concentrar nos vinhos da Ferreirinha, acabei por degustar quase tudo que lá estava no Blue Note, naquela tarde voltada a celebrar com os especialistas a longevidade da importadora. Fui de Don Abel Merlot Reserva, ótima expressão da Serra Gaúcha e sua vocação para o Merlot. Fui para o Trumpeter Malbec/Syrah e para o Rutini Cabernet Franc/Malbec, vinhos que demonstram a qualidade indiscutível da Malbec, quando se trata de corte.

Pulei direto para a Europa, mesmo sabendo que estava perdendo muita coisa interessante, entre os outros continentes. Me interessava recuperar o gosto de um velho conhecido meu, o Esteva, vinho de entrada da Casa Ferreirinha. Vinho que ganhou de uma degustação onde tinha Rioja Crianza, Morgon e Alentejo, muitos anos atrás, quando a Ferreirinha fazia parte da carteira da Aurora Importadora. Pois estava ótimo, excepcional, para um vinho de entrada, apesar dos R$138,00, três vezes acima do que já custou. Mas quem está na chuva tem que se molhar… então por que não relembrar o Planalto Reserva, velho conhecido, o Papa Figos branco e tinto? E por que não conhecer os vinhos de mais alta gama o Vinha Grande Tinto? Tinha um vinho mais interessante que os outros, um Castas Escondidas, formado por aquela confusão original do Douro, parcelado por Vinhas Velhas, Tinta Amarela, Touriga Fêmea, Tinta Francisca, Tinto Cão, Touriga Nacional, Touriga Franca, Marufo Tinto e Bastardo! Na próxima visita que fizer à Ferreirinha, hei de visitar estas uvas no pé, hei de conhecer cada uma delas na taça.

Com meu histórico acima citado, Rioja Alta era destino obrigatório e fiquei naquela bancada pelo tempo necessário para continuar apreciando seus modus faciendi, tão apreciado, mundo afora. Não esperava receber um gole de 890 ou do 904, mas os que me ofereceram ocuparam todos, um lugar no pódio da tarde.

A Barbera D’Alba, uma uva que me conquista cada vez mais, estava muito bem representada na barraca da Massolino do Piemonte, o Lupi Reali impressionou com a qualidade de seu Montepulciano d’Abruzzo, bem mais consistente que outros que se apresentam em nosso mercadinho.

Mas da Italia, levei para casa o gosto inesquecível do Nicosia Nerello Mascalese, sem subestimar os outros Etna da bancada. Lembrei da importância desta uva, em tempos de filoxera, quando ela substituiu com muita qualidade os pedidos que se fazia para os Borgonha, devastados pelo pulgão. Assim como brilhou no inicio dos anos 1900, desapareceu do mercado com a volta dos Borgonha e seus fantásticos Pinot Noir. Pensando neste gosto, logo pulei para os produtos do E. Delaunay e pude constatar que o Nerello não ficava a dever ao Septembre, vinho de entrada da casa. Assim como podia confrontar, numa boa, o vinho de Macon da D. de Rochebin.

Não poderia fechar este relato sem falar nada de um dos produtos mais importantes que se possa fazer com bagas brancas, um Jerez Fino, seja no formato Real Tesoro e o impressionante Inocente da Valdespino, cuja solera tem 10 estágios, uma raridade que dá mais corpo ao delicioso vinho dourado. Ou seja, os 37 anos da Zahil falam por cada produto que representa.

(Legenda: Imagem ilustrativa | Crédito: Divulgação)

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