
Para participar de uma confraria, fui convidado a me apresentar. Para isso, escrevi o texto abaixo:
Nesta confraria, me apresento de mansinho, porque as feras mordem antes aqueles que mais se pavoneiam.
Na minha medida, bebo vinho há muito mais tempo, e em quantidade muito maior do que aqueles que andei porventura degustando.
Sou daqueles que busca harmonia em tudo, até no postar o pé direito adiante do esquerdo, para depois trocar a ordem.
O vinho não foge disso, bebo para beber e não para lembrar ou esquecer.
Bebo, porque do vinho espero a travessura de sair do sério mantendo sempre a compostura.
Tentei ser bamba nessa história, aproveitando os anos que me dei cheirando, provando com atenção redobrada.
Mas confesso que às vezes, de tanto comparar rótulos, de exaltar uns, menosprezar outros, esqueço de retirar o prazer que me dá esse suco fermentado, que tanto trabalho exige, desde a labuta das mãos na terra, até os da pipeta diária, que ordena, finalmente o engarrafamento.
E não adianta buzinar, dizer que está com pressa, o vinho segue seu curso, não importa se você é importado ou não, se você veio da China ou mesmo do Paquistão.
Assim me apresento, sou do vinho, sou sujeito. Mas sou objeto também, jamais serei capaz de parar o tempo em torno de mim, jamais serei o mesmo, a cada gole que me torne rio, não sei se rio ou choro, espero que você e seus parças sejam assim também.
