A Alsacia à frente dos outros franceses, destaque na Revue Du Vin

Um produtor de vinho da Alsacia, a Maison Trimbach, foi premiada como a Marca do Ano de 2024 pela prestigiada Revue du Vin francesa, e a notícia me jogou num turbilhão memorial, que só as experiências bem vividas são capazes de provocar.
Vivia eu com a Rita, minha primeira mulher, aos 23 anos, numa espécie de república para estudantes refugiados, nos arredores de Paris, numa cidadezinha chamada Massy, cerca de 45 minutos de Paris de trem. Hoje em dia, ela faz parte da rede moderna de metrô, demora não mais que 5 minutos.

Ganhávamos o suficiente para pagar o quarto, comer no restaurante universitário, pagar o transporte até a faculdade – que ficava praticamente do outro lado da metrópole vizinha – e ainda sobrava uns trocados para comprar jornal se divertir no Parque de Atrações Gastronômicas, que era – e continua sendo – Paris.

Entre outras tantas atrações, uma instituição irresistível da cidade: os vinhos vendidos em taça em praticamente todos os bares, o ballon de rouge (taça de tinto) e sua versão branca, o ballon d’Alsace (taça de vinho da Alsácia). Custavam menos que uma Coca-Cola, menos do que um café expresso, menos do que qualquer coisa. E não eram de todo ruins, ao menos para quem tinha menos de 1 ano de experiência de vinho bebido com regularidade e muito pouco dinheiro para me aventurar em direção aos vinhos importantes.

O ballon de rouge vinha da região do Loire, que tradicionalmente forneceu vinhos a granel para a região parisiense desde o século XIX. Vinha numa garrafa de 1,5l e tinha um rótulo que era surpreendente para os brasileiros: vin ordinaire superieur… como ‘ordinário superior’, dizíamos nós?!? Soava estranho, apesar de compreensível. Ordinário é sinônimo de comum e, mesmo sendo comum, podia ter um degrau de qualidade, uma escolha do engarrafador. Ou seja, não tinha qualquer especificação regional ou de manejo, como se espera dos vinhos classificados e regulados pelo Instituto Nacional de Origem e Qualidade dos vinhos franceses. Mesmo assim, passava por alguma seleção do produtor, algo pouco confiável, um pouco como o tal “Reservado” que está presente nos rótulos dos vinhos mais simples chilenos.

Já o seu parceiro branco, o ballon d’Alsace, dizia de onde vinha, sem, contudo, determinar o produtor, apenas a procedência regional e, eventualmente, a uva de origem. Normalmente, era um Sylvaner ou Pinot Gris, duas uvas de baixa gama na hierarquia das uvas de vinho da região, mas acontecia de sermos servidos de um blend com as uvas mais nobres: a Gewurzstraminer e a Riesling. Portanto, de longe, mesmo em períodos mais frios, o branco era mais confiável que o tinto.

No entanto, a existência de um ballon d’Alsace revelava, desde sempre, o pouco caso que os franceses faziam da produção de vinhos nesta região tão importante. Como fazem questão de analisar no Atlas Mundial do Vinho, VI versão, os especialistas Jancis Robinson e Hugh Johnson mostram que a Alsácia sempre teve sua dificuldade de ser vista como produtora de primeira linha, um pouco porque é mais fruta do que concentração, e está na outra ponta dos importantes Montrachet e Condrieu, dos Chateauneuf du Pape, dos grandes brancos de Graves. Mas revela também, que uma boa parte dos produtores de tradição familiar, que está no pedaço desde antes do século XVII, migrou também para a comercialização, criou grandes conglomerados, voltados ao mesmo tempo, à produção de grandes quantidades, reservando a parcelas mais nobres, a procura insistente da excelência.

Trimbach produz mais de 1 milhão de garrafas com certificado integral Bio (orgânico), mantendo controle de qualidade, seja com as uvas compradas, seja com as colhidas em seus próprios 67 hectares de vinhedos.
Dezessete gerações se passaram produzindo Riesling, Pinot Blanc e Gewurzstraminer em ao menos 50% de seu território, sempre em Ribeauvillé. A vinícola debutou numa feira em 1899, em Bruxelas, na Feira Internacional da cidade, feira que se mantém com grande prestígio até os dias de hoje.

Na mesma pegada da Trimbach, Hugel, Dopff, Humbrecht, Becker e Kuehn, são a base econômica e mercadológica para grand crus como Josmeyer e Clos Saint Urbain.

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