
Por Breno Raigorodsky | Giulio é o nome do guia de turistas que, à semelhança de Claudinha, Fabíola La Piazza escolheu para mim. Diga-se, Claudinha é aquela pessoa na Mistral Importadora que se ocupa de organizar eventos internos e visitas para os clientes entre os produtores envolvidos com a importadora.
Claudia Mota é o nome fantasia da Claudinha, a fera da Mistral, que já me facilitou conhecer produtores, entrevistar gente do vinho, participar de degustações inesquecíveis… Lembro daquela em que pude provar o Nicolás Catena Zapata, que catapultou toda e qualquer resistência que o mundo tinha para com o Malbec e o vinho argentino em geral. Lembro daquele Valdemar, feito de Tempranillo branco. Lembro dos Franciacorta, o mais simples deles, o Pinero, que nunca mais vi por aqui.

Diga-se “à semelhança de” Claudinha, porque ela é a pessoa que se responsabiliza por acolher os visitantes enviados pela Mistral. Giulio foi escolhido por ela a dedo. Seu conhecimento sobre vinho e sobre a Tasca d’Almerita foi suficiente para a tarefa que eu tinha. Nenhuma pergunta, por mais particular que fosse, ficou devendo uma boa resposta.
Qual o papel da levedura selvagem? Vocês a usam?
Desde sempre, e não apenas para dar o start da fermentação. Estamos diante de uma levedura que vem sendo treinada, selecionada por anos. Criamos o nosso próprio futuro, queremos mostrar aos outros produtores que somos capazes não apenas de fazer tão bem quanto os outros, mas dar exemplo de enologia para todos.”
“Regaleali planta apenas uvas da Sicília?”
Há uma geração atrás, o filho do responsável por toda a vinícola fez uma plantação em terreno nobre, à revelia do pai. Plantou às escondidas sete hectares de uvas internacionais, pois o pai sempre quis que os vinhos da Sicília fossem reconhecidos pelo potencial vinífero da grande ilha, que se vissem suas qualidades.
Cabernet Sauvignon pedia passagem no mundo inteiro, Merlot idem.
Sim, eram os anos 70. O mundo estava preparado para acolher os vinhos de fora dos terroirs consagrados: Borgonha, Bordeaux, Langhe piemontês, Rioja, Toscana e poucos outros mais. Era tempo de Tignanello e dos Bolgheri.
E não apenas eles. Quem quisesse conquistar o mercado, que àquela altura ainda era incipiente, mas que se fortaleceu até hoje — com o consumidor consumindo cada vez mais vinhos de regiões menos conhecidas —, precisava abrir caminho com algum vinho que trabalhasse a madeira do jeito esperado, que diminuísse a surpresa que o inédito poderia trazer.
Ou seja, a ideia era mostrar que sabiam fazer grandes vinhos como os mais conhecidos para, com isso, introduzir com muito menos resistência o que tinham de específico.


