Deu no Le Figaro de Paris: brasileira vira milionária do vinho, sem querer

Por Breno Raigorodsky | Em 2017, depois de muitos anos, Lygia Eliceche — brasileira, morando bem no Rio de Janeiro — finalmente cedeu ao desejo do marido, o francês Daniel, de comprar uma casa para morar na terra onde nasceu.

Daniel, profissional qualificado no setor de extração de petróleo, havia reforçado seu pé de meia após 15 anos de trabalho no Pré-Sal carioca, onde conheceu Lygia — e por ela foi ficando.

De repente, surgiu a oportunidade de transformar essas economias em uma casa na França. Por 200 mil euros, o casal adquiriu uma propriedade na aldeia natal de Daniel: Beychevelle, um lugarzinho perdido nos arredores de Pauillac, Médoc, Bordeaux.

No mundo do vinho, sabemos — ou ao menos imaginamos — que numa área como essa, autorizada a usar a Denominação de Origem Saint-Julien, o cultivo das uvas certas, com o manejo adequado, pode se tornar um meio altamente rentável de negócio. Em 2019, após alguma hesitação, o casal comprou 2.000 m² (0,2 ha) e iniciou o cultivo das vinhas nobres de Cabernet Sauvignon da região. Seis anos depois, começaram a vender a primeira safra, amadurecida em barricas de carvalho desde 2021.

Nessa terra, hoje, Daniel produz 5,5 barris de 225 litros por ano — o equivalente a 700 garrafas Magnum (1,5 litro cada). O rótulo, batizado de “Evoke”, tem o nome gravado à mão sobre uma folha de ouro de 24 quilates. “Cada Magnum é numerado e valorizado como uma obra de arte única”, conta o vinhateiro, que vende cada garrafa por 150 euros, ou 250 euros a caixa.

Trata-se de uma produção mínima, mas capaz de gerar uma receita mais do que razoável. Daniel continua em atividade, atuando como diretor de programação no estaleiro naval Couach, reservando noites e fins de semana para o cultivo das vinhas. Já Lygia e a família dele — que traz uma experiência secular no ramo — cuidam do trabalho diário, tanto no campo quanto na cantina.

“Já poderíamos vender facilmente nosso terroir por ao menos o dobro do que pagamos, mas esse não é o propósito. Muito pelo contrário: essa parcela consolida o lastro familiar na comunidade de Saint-Julien”, afirma Daniel Eliceche.

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