
Por Breno Raigorodsky | Tenho tido especial interesse nos vinhos brasileiros que saltam como pipoca, território nacional afora. Qual é o melhor deixou de ser o grande foco, pois impressiona a quantidade de empresas que aparecem nos novos Terroir, quase sempre a preços inatingíveis. O valor de R$350,00 tornou-se um ponto médio de mercado para estes vinhos, vinificados com pouquíssimo volume, se bobear menos de 1000 garrafas ao ano.
Alguns, a grande maioria, são mais do mesmo, commodities de vizinho rico: ah, meu compadre está se dando bem com o vinho que ele faz, só pra dar de presente. Está ficando mais famoso pelo vinho do que pela sua atividade principal. Preços altos, Vinho Vaidade… Não há como ser contra, não vão ficar no chove e não molha – ou desaparecerão, ou se tornarão uma ótima alternativa de mercado, dia desses.
Injustiças à parte, tenho me defrontado com boas pérolas nessa garimpagem: um vinho branco integral chama grande atenção, é um Lorangi, feito de uvas do Vale do São Francisco, Sauvignon Blanc, é técnica raiz da Geórgia, o berço da vitivinifera. Que grande vinho, produção mínima, com capacidade de evoluir e se firmar. Vinificação em ânfora, processo de guarda igual ao que se tem na Geórgia, filtragem mínima, tudo que os naturebas gostariam de um dia fazer.
Na outra ponta, estão os produtores que estão por aqui, crescendo e se consolidando, desde que vieram do Vêneto, Itália, em meados do século XIX, quando começaram fazendo pra consumo e viraram importantes, com produção que até passa dos um milhão de garrafas/ano. Com o tempo, devagar e sempre, foram migrando para uvas vitiviníferas, foram investindo em formação e equipamento, foram se equiparando com o que havia de melhor no estado da arte. A Valduga é uma dessas. Formou enólogos jovens, colheu o que plantou em qualidade. Seus carros chefes como os espumantes de primeira linha e seu icônico Storia, que rivaliza em importância com o Lote 43 da Miolo, incentivaram a casa a olhar cada vez mais pra cima, em termos de qualidade e até deu tempo de olhar para o lado, em termos de preço.
É bom falar muito da linha Terroir, que tem um Cabernet Franc de encher os olhos, desde o rótulo e a garrafa imponente, tão pesada que você até pensa que está tomando uma dessas do século passado, tipo um Teroldego do alto Verona, metido a besta, que tomei uma vez, 15 anos atrás, que surpreendia pela garrafa, em primeiro lugar. Mas é na boca, mais do que nos olhos e no nariz, que esse Cabernet Franc pega a gente. É vinho dos tempos em que os enólogos tinham os olhos voltados para os grandes Cabernet Franc da França. E custa em torno dos R$100,00. Taí um vinho pra chamar de seu.
