Um jantar com Carmen

Por Breno Raigorodsky | Com 175 anos de vida, Carmen carrega o título de a mais antiga vinícola chilena em atividade. É pouco, dirão os mais implacáveis consumidores; é preciso crescer, atualizar-se, diversificar.

É pouco, mesmo considerando-se o fato de que foi entre as vinhas de Carmen, que se redescobriu a Carmenère, uva emblemática do Chile, em 1994, até então confundida com a prima merlot.

É pouco, mesmo quando se sabe que foi ela que inaugurou a primeira linha de vinhos orgânicos e sustentáveis, a Nativa, no mesmo ano de 1994.

Em 2020, o que já não era nada pouco ganhou ainda mais consistência, com a introdução da Bodega Gold, vinhos de excelência.

Pudemos jantar, nós, os jornalistas da área, com alguns de seus ícones, de várias zonas do Chile. Não consegui prestar atenção em toda a linha apresentada, visto que os dois primeiros vinhos me bastariam: um surpreendente (e bota surpreendente nisso!) Semillon da linha DO, um vinho nascido de vinhas centenárias de Apalta, com guarda em barril de vários usos de 225litros, sobre lias por um ano, sem filtragem e clarificação.

É a mais surpreendente amostra de vinho branco do ano. Custa mais de R$300,00, mas muito poucos vinhos do mundo podem dizer que valem mais do que ele. A austeridade é precisa, o nariz de flores brancas e cítricos profundos é contido, e a boca é de uma complexidade fascinante, provando a qualidade desta uva, que tanto sucesso faz em Bordeaux, do outro lado do Atlântico.

A segunda amostra veio de Itata e também encantou, apesar de não ter tanto impacto quanto a primeira — mas, talvez, isso fosse pedir demais.

O Loma Seca, também da linha DO, 100% Cinsault, mostrou que vinhos de pouca concentração podem ser extremamente prazerosos, além dos Pinot Noir, uva consagrada pela mágica complexidade e longevidade, a pouco álcool e baixas taxas de taninos. Este Cinsault, é uma bela alternativa: mostrou-se incrivelmente elegante, parecia nascido alguns quilômetros ao sul de Beaune, apesar de ter sua crianza em ovos de concreto e passar 18 dias em fermentação. Com PH de 3,63, residual mínimo de açúcar e 13% de álcool, este vinho já é um clássico da vinificação chilena. Custa mais ou menos o que custa o seu irmão branco.

Foram sete amostras, certamente todas muito boas, incluindo aí um exercício de solera com o mesmo Semillon — um parente dos Jerez Fino — muito elegante e sisudo.

Mas já não adiantava mais, estava praticamente anestesiado pelos dois primeiros.

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