A Catalunha quer competir como Catalunha

Por Breno Raigorodsky | 2025 – Produtores à procura de importadores, isso não é novidade, caso contrário não teríamos tantos milhares de rótulos vindos desde a Nova Zelândia até o Canadá, sendo ofertados em tantos milhares de pontos de venda entre nós. Há anos, o Brasil é destino de produtores de toda parte, não por acaso, somos consumidores de respeito, somos mais 100 milhões, apesar do relativamente pouco consumo/capita.

Nem a Catalunha é novidade. Esta apresentação que assisti semana passada, foi a terceira ou a quarta da região, que tive oportunidade de participar.

A diferença maior é que desta vez se apresentaram claramente sob a denominação de origem Catalunha, que traz uma novidade, até onde sei: a obrigatoriedade do selo “orgânico” apostando todas as fichas no crescimento deste nicho de mercado.

Evidentemente, muitos produtores ficarão de fora, afinal a quem interessa o selo, se já está sob o guarda-chuva tão importante e reconhecido, como Priorat, por exemplo, que tem tanto prestígio quanto as melhores regiões do mundo e a única que se compara aos Rioja?

1980

Para mim, a Catalunha é um mundo antigo, que conheci na virada da década de 1980 e conto como: um amigo enófilo adiantado, chegou da França com mala e cuia, depois de 10 anos de estágio forçado por lá. Na mala, a última edição do ano da prestigiada Revue du Vin do ano, que trazia – por tradição – uma eleição dos melhores vinhos degustados pelos editores, no ano que estava por acabar.

Em primeiro lugar um Lafite1er Gran Cru Classée 1970, ao preço de 360US$

Em segundo lugar, um Grand Coronas Torres 1970, corte bordalês, ao preço de 36US$!!!! Em sétimo lugar, um Corona Torres, ao preço de 20US$!!!!

Esta Torres catalã – que recentemente se apresenta como a mais desejadas do mundo – chegava ao Brasil pelas mãos de uma pequena importadora, dirigida por um casal de catalães, que nos vendeu nem sei quantas caixas de ambos os vinhos.

Pois bem, era o grande vinho que eu tinha em casa, inesquecível. Ambos eram vinhos feitos com a Cabernet Sauvignon e Tempranillo, que tão bem substituía a francesa Merlot no corte bordalês, especialmente adaptadas ao terroir de Penèdés, a um nível que somente a Toscana foi rivalizar.

1995

Depois de muitos anos, já trabalhando com enogastronomia, descobri a importadora Península, que frequentei até que fechou, e por lá conheci várias marcas famosas e importantes da Catalunha, entre tantas a Juve&Camps, que se tornou referência de Cava para mim. Evidentemente, não falo do mais recente produto da marca, um Reserva de Familia, um Nature que homenageia os 50 anos de safras contínuas, com um espumante excepcional, que tem 15 anos sobre lias, antes da filtragem final e custa mais de 170 Euros. Bastava seus produtos de 20 Euros, para reconhecer sua majestade, fruto de conhecimentos recebidos diretamente pelos franceses, que foi introduzida quando da ocupação napoleônica, entre 1823 e 27. Como curiosidade, é bom saber que a Cava se apresentou ao mundo na Exposição Universal de Paris de 1867, com o nome de Champagne do Réus, nem 20 anos antes da chegada da Filoxera em Penèdés, que arruinou a cultura do vinho na região.

2025

Na degustação da semana passada, sobressaíram-se, fortemente, vinhos que na origem, para fins de importação, chegam ao importador na faixa de 12/14 Euros:

  1. o excelente vinho branco Priorat Porrera Vi de Vila Blanc, Garnacha blanca100%. Esta foi apenas a minha segunda degustação de Garnacha blanca, a primeira foi  um Mas Grenache Blanc, dos Pirineus, importado pela Decanter, que já tinha me encantado, anos atrás. A maçã mandou no nariz, mesmo sendo um vinho de ótima passagem por sur lie e madeira, tornando-o elegante, untuoso, complexo e muito gastronômico.
  2. e o surpreendente Coca I Fitó Montsant Maragda CM 2018, com Syrah, Garnacha e Cariñena, mesmo tendo como concorrente na própria degustação um Priorat tinto. Na verdade, um grande Montsant nem é uma novidade, já aconteceu comigo. Tomei um Montsant que era superior a vários Priorat na mesma degustação. Nesse caso, ficou muito marcada a superioridade do que preferi, a considerar a opinião de muitos outros degustadores lá presentes. Este vinho, de 14,5% de álcool, com passagem por madeira que lhe dá o direito de usar o Título de Crianza. Com taninos redondos, com a presença de traços de amêndoas e pera em compota, é um vinho equilibrado e elegante, fácil de beber.

Com ou sem Catalunha como denominação de origem, é na boca que os vinhos da região se defendem… eu diria que muito bem!

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