
Por Breno Raigorodsky | Localização: Espero no Plou, bar de vinho, a chegada do Lamberto — o Pippo — um cara que cresceu sob a égide de seu pai, Luciano, um grande benfeitor do vinho em geral, e do italiano em particular, a partir de 1985, quando abriu sua loja de vinhos.
Foi ele quem abrasileirou a palavra “Vinheria”, sinônimo de adega de vinhos, ao conferir o nome de Vinheria Percussi à sua adega, complementada por uma sanduicheria, que evoluiu para um restaurante e que tanta fama e sucesso fez entre nós.
O Pippo (como o Lamberto é conhecido entre os amigos mais próximos) divide com a irmã, Silvia, a responsabilidade do restaurante: ela cuida da cozinha, ele do salão e dos vinhos. Ambos fazem isso com naturalidade e experiência cada vez maior, pois a experiência é o atributo do tempo que passa.
Vem conversar comigo sobre a Arianna Occhipinti, uma vinícola siciliana que não para de crescer em prestígio e garrafas, inclusive no Brasil. É estrela ascendente desde a cidade de Vittoria, no centro da grande ilha italiana, epicentro da uva Frappato di Vittoria.
Que não se subestime a capacidade da Sicília de brilhar em qualquer campo: é bom não esquecer que um dia sediou a capital da Magna Grécia, no ápice do império mediterrâneo — rivalizando em importância com Atenas — em sua Siracusa/Ortigia, que continua sendo uma das grandes maravilhas da Antiguidade entre nós.
Obviamente, a Sicília exporta mais do que a cultura pré-romana — dominada que foi por Fenícios, Gregos, Romanos, Bizantinos, Cruzados Normandos e Espanhóis — para finalmente fazer parte do reino dos Bourbon e, na sequência, ser incorporada ao Reino da Itália unificada, nos tardios anos de 1860.
O que há de especial neste caldo cultural é que se encontram traços não apenas étnicos de todos esses povos, mas também na arquitetura — às vezes em ruínas, outras tantas em bom estado de conservação —; na língua, que carrega um sotaque único e tantas palavras e expressões do árabe e do grego à sua maneira, trata-se de um dialeto com a força de uma língua própria, reconhecida — diga-se de passagem — pelo próprio Dante, que serviu de referência para a Itália unificada.
O que isso tem a ver com o vinho que lá se produz, foco deste artigo? Não sei, mas desconfio.
Quem espera sempre alcança alguma coisa
Na espera de quem vou entrevistar, aproveito para ver os vinhos da carta desta que é a bola da vez em matéria de bar de vinho em São Paulo — acaba de ganhar premiações como as do Paladar e da Veja SP.
De fato, a carta é surpreendente, enorme, deve agradar a quem quer beber vinhos desconhecidos. Mesmo produtores conhecidos, como o Era dos Ventos, do Zanin, aparecem com tudo, menos com o Peverella laranja, seu cartão de visita. De resto, é notável a farta presença dos vinhos do Jura e a mínima escolha dos vinhos de Bordeaux — apenas um Saint-Émilion branco e alguma coisa de tinto. Italianos, pouquíssimos; espanhóis e portugueses, idem.
Mas o bar é autoral: tem uma lista impressionante de champagnes, mousseux e crémants — nenhum Franciacorta, nenhum espumante dentre os excelentes portugueses. Mas autoria é autoria: posso não gostar do jeitão, mas parece que foi fortemente aprovado pela crítica e pelo consumidor.
O Lamberto e a Occhipinti
Lamberto, na virada do milênio, pegou um vírus incurável — até ele não tem a mínima pretensão de se curar. O vírus chama-se Vinitaly: fica ativo a cada ano em Verona e, a partir de 2026, expande-se e chega ao Brasil, China, Chicago e Índia. Vai ter uma edição no Brasil, em Bento, de 12 a 14 de abril de 2026.

Mas o nosso personagem não conheceu Arianna Occhipinti naquele espaço feirante tão cheio de alternativas. Naquela primeira visita, foi conhecê-la a partir de uma garrafa do seu SP68 na seletiva Osteria Francescana, de Massimo Bottura, onde tudo é regido pelas reflexões mandatárias do chef e restaurador: “Nunca pare de questionar” — palavra de ordem oriunda da geração de 1969, que tudo questionara e, em parte por isso, tornou-se referência mundial. É o atual detentor do título de Melhor Restaurante do Mundo.
Foi lá, naquele começo de milênio, que Lamberto foi provocado a escolher o SP68 Occhipinti. Fica impressionado com a leveza e sinceridade do que bebe. O nome Occhipinti entra em seu radar; ele fica impressionado com toda aquela aura e com a forma como o vinho siciliano se compõe e se recompõe conforme os pratos vão se associando a ele.
Voltando ao Brasil, tenta entrar em contato com Arianna, se informa sobre ela, procura informações sobre seu processo de trabalho, aposta que se trata de uma estrela ascendente.
De repente, uma oportunidade surge, já nos anos 2010: um pequeno importador tem um lote mínimo de SP68 à venda. Lamberto faz um lance e arremata as poucas garrafas do lote, que são facilmente consumidas na Vinheria Percussi, lugar que sempre soube liderar as novidades da Itália.
De tanto insistir, consegue uma resposta positiva da Sicília. Arianna sugere um meio pallet de seus vinhos, que os Percussi aceitam sem pestanejar.

Degustando Arianna
Pela estrada SP68, chego à vinícola, que fica ao lado da simpática cidade de Vittoria, conhecida menos pela uva Frappato di Vittoria — que leva seu nome — e mais pelos queijos que produz.
Nas palavras da guia que nos acolhe — por acaso também chamada Arianna — uma característica básica daquela vinícola é priorizar o aspecto agrícola da azienda. Ou seja, é uma vinícola vista pelos olhos de quem produz vinho, entre outras coisas.
O conhecimento da terra, do clima, do solo e subsolo; o conhecimento da fauna, dos componentes químicos da terra e dos nutrientes são tão valorizados quanto o cuidado com as vinhas em si. Isso não é blá-blá-blá: a vinícola produz muita coisa além do vinho, entre elas azeite, trigo — e, de quebra, várias massas típicas — e queijo.

Quanto aos vinhos servidos, numa sala decorada por piscinas medievais onde um dia se fazia vinho por lá, demonstra-se a ancestralidade do terroir na produção.
Sobre a mesa, grandes copos quadrados cheios de pedras e areia — às vezes material orgânico da terra — cada um deles representando o tipo de solo onde cada vinho evoluiu.
São quatro vinhos, todos construídos sem qualquer insumo industrial, incluindo aí as leveduras, todas autóctones, evoluídas a partir de amostras que foram sendo selecionadas conforme as safras passavam.
Arianna é dada a discursos, mas estes tendem a ser explicativos de suas buscas:

“O nosso trabalho no campo é uma incansável fonte de observação. Em particular, nos últimos anos, concentrei-me na potencialidade infinita das uvas Frappato di Vittoria e Nero D’Avola, mas igualmente nos terroir (contrade) e suas potencialidades em Vittoria, assim como sua influência sobre os vinhos.
Dei-me conta de que as vinhas trabalham sobre este jogo de areia e calcário, que nos vinhos se apresentam em fruta e seda — de um lado — e acidez e energia, do outro. E tentei preservar esses elementos da vinificação, na medida do possível.
Esta pesquisa continua e me ajudou a identificar quatro vinhas: para o SP68, Santa Teresa, Bastonaca, Spedalotto e Bombolieri; duas para o FRAPPATO, Bastonaca e Fossa di Lupo; e duas para o SICCAGNO, Bombolieri e Fossa di Lupo.
A mesma pesquisa me levou a pensar cada vez mais em ‘uma vinha, um vinho’. Ou melhor, quatro.”

A degustação
Tudo começa com o Fossa di Lupo (FL), espinha dorsal do seu trabalho, a partir da safra de 2004. Trata-se de uma contrada que resulta em vinhos frutados, mas igualmente austeros, cujo terreno mescla terra escura, pedra calcária e extrato de rocha compacta.
É um vinho que nasce de extração de 6.000 plantas por hectare, com agricultura biodinâmica certificada, sem qualquer intervenção química.
A fermentação se dá em vasos de cimento e leveduras indígenas. Atinge 12% de álcool na safra que degustamos, a de 2022. Por seu caráter terciário, o vinho se apresenta com os aromas e a boca primários muito presentes, embora a complexidade esteja lá. De cor transparente, impressiona pela personalidade: é Frappato 100%. Um bom exemplo de como esta uva emblemática se comporta. Gostaria de degustá-lo novamente em três ou quatro anos…
O segundo vinho é o ícone SP68 2024, aquele que frequenta o templo dourado do Massimo Bottura. Vinho jovem, porém muito equilibrado, em seu blend de 70% Frappato e 30% Nero D’Avola; solo de areia e calcário; seis meses em vaso de cimento e descanso em garrafa por ao menos um mês. Terroso e fresco, seus 12,5% de álcool estão totalmente integrados — destaca-se ao primeiro gole, particularmente pela elegância para quem jamais teve contato com madeira.
O terceiro é o Santa Margherita (SM), mais um vinho de terroir, agora um Grillo 100% — uma uva com a qual venho ganhando intimidade nos últimos anos — que impressiona pela mineralidade e fruta branca, com estrutura que sugere algum envelhecimento. Parte passa dez meses em cimento, enquanto um bom percentual descansa em botte de madeira austríaca de 25 hl. Continua se educando por quatro meses depois de engarrafado. Só então vai ao mercado.
O quarto vinho, Grotte Alte, é o mais ambicioso. Atinge o preço de 60 € na Itália e mira os grandes blends: 50% Frappato di Vittoria, 50% Nero D’Avola, com domínio terciário, sem contudo deixar-se dominar pela madeira.
Neste caso, tudo é majestoso, desde o tempo em botte de 50 hl (48 meses), proveniente de vinhas velhas — ao menos 40 anos. No rótulo, Arianna escreve:
“É um vinho mediterrâneo, que conserva a salinidade do mar mesclada à amplitude térmica da montanha… é a síntese da minha Sicília”,
ou seja, o melhor de si.
Deixo para o crítico do Gambero Rosso a análise organoléptica:
“O Grotte Alte di Arianna Occhipinti é um vinho que, mesmo apresentando uma leve nota etilfenólica, é considerado incrível, potente, sério, sem qualquer defeito ‘bio’. Trata-se de um Cerasuolo di Vittoria DOCG, que se distingue pela complexidade e potência.”
The end
Sempre olhei enviesado para os vinhos feitos de olho neste nicho orgânico, onde a chamada “mínima intervenção” parecia mais um tanto de preguiça e muito oportunismo como recurso de mercado, mesmo quando envolto em convicção ideológica.
Gente que acha que descobriu a pólvora fazendo um vinho descuidado, desconsiderando toda a evolução enológica que ocorreu depois dos anos 1980, achando que o que é legal é fazer um vinho que seja um suco de uva minimamente alcoolizado.
Occhipinti dá uma lição. Não é um Chapoutier, que decidiu não mais impregnar seu solo com defensivos agrícolas — já nasceu assim.
Quem puder, faça como Lamberto Percussi, Massimo Bottura, eu e tantos outros: prove-os!

